eu vou ser direto
Se você anda se sentindo “menos criativo”, “menos produtivo” ou “menos capaz” do que há cinco anos…
Talvez o problema não seja você.
Mas calma. Sem drama. Não é sobre isso ainda.
Outro dia, de olho na fila que se formava no café, eu reparei numa coisa boba.
Estava todo mundo ocupado. Celular na mão. Fone no ouvido. Olhar perdido, mas não livre.
5min de espera pareciam uma afronta pessoal.
“Como assim não tem nada acontecendo?”
hoje, tudo é preenchido
Com informação. Com estímulo. Com ruído.
Aprender precisa ser rápido.
Trabalhar precisa ser fluido.
Criar precisa ser prazeroso.
E, de preferência, tudo ao mesmo tempo. "Não temos tempo a perder"
Se dói, se demora, se frustra… a gente troca de aba.
E chamamos isso de evolução.
“Você está ficando para trás.”
“O mundo está acelerando.”
“Se adapte ou morra.”
A economia da atenção não só nos distrai. Ela redefine o que a gente considera progresso.
Ela pega algo profundamente humano (o esforço lento, repetitivo, sem recompensa imediata) e transforma isso em algo quase vergonhoso.
Chato. Ineficiente. Suspeito.
E foi assim... olhando aquela fila inquieta se alongar que me bateu uma pergunta meio incômoda:
Quando foi que ficar sem fazer nada virou sinal de fracasso?
"demais" não é além do necessário
Ryan Holiday tem décadas de trabalho sólido como escritor e teve mais de 20 assistentes de pesquisa na sua carreira.
E isso é fora da curva, tá?
Uma vez, ele disse algo simples sobre pessoas que tentaram trabalhar com ele (e falharam).
"Não era falta de talento."
Nem de inteligência. Nem de referências.
Era outra coisa.
Não aguentavam ler demais.
Pensar demais.
Refazer demais.
Derretiam ao primeiro desconforto. Ao primeiro “isso não está bom”. Ao primeiro dia sem dopamina.
Ali existia uma linha invisível. De um lado, quem atravessa o tédio. Do outro, quem desiste.
Eles simplesmente não sabiam ficar entediados.
porque não aguentamos?
Hoje, se algo não responde rápido…
se não melhora logo…
se não mostra resultado visível…
a gente assume que está errado. Ou assume que a gente está errado.
O próprio Jerry Seinfeld contou uma vez que aprendeu isso observando um outro comediante, bem mais velho.
Ele desligava tudo.
TV. Música. Telefone. E ficava olhando para uma piada ruim. Sem graça. Mal resolvida.
Até dar vontade de fugir, de esquecer aquela idéia.
E justamente ali, naquele ponto em que o cérebro começa a implorar por distração, alguma coisa quebrava.
A ideia mudava. Se dobrava. Virava outra coisa. Não por genialidade. Mas por exaustão do tédio.
A neurociência tem um nome feio pra isso. Mas a ideia é bonita.
Quando você não faz nada, o cérebro não desliga. Ele conecta.
Associa memórias. Mistura experiências. Cria atalhos improváveis. O estado “ocioso” não é vazio.
É fértil. Só que ele não compete bem com notificações.
então, você não está menos criativo
Não se engane.
A tecnologia, o algoritmo, o Instagram... quem quer que você culpe ou justifique seus feitos ou fracassos, está te deixando menos tolerante.
Menos tolerante ao processo que cria coisas boas.
Ela pega o medíocre, polido o suficiente, e vende como genial.
Enquanto isso, o verdadeiro trabalho parece antiquado. Quase ofensivo.
"como ser mais produtivo?"
Talvez essa não seja pergunta a certa a se fazer. Talvez seja outra, bem menos confortável.
Não quero defender uma idéia como virtude moral. Nem romantizar sofrimento criativo.
Isso aqui não é manifesto contra tecnologia. É só um lembrete meio atravessado:
nem tudo que parece atraso é regressão.
nem todo silêncio é vazio.
nem todo tédio é perda de tempo.
Algumas coisas boas só aparecem quando você para de tentar escapar.
Hoje, talvez criar não seja aprender mais rápido. Mas aguentar mais tempo.
Mais tempo na dúvida.
Mais tempo na repetição.
Mais tempo no desconforto de não saber se vai dar em algo.
E confiar que, se você ficar ali o suficiente… alguma coisa conecta.
Então...
"Quanto tempo você aguenta ficar entediado?"
Eu não sei se isso vai te deixar mais “bem-sucedido” ou até “mais criativo.” Mas sei que muda o tipo de coisa que você é capaz de fazer.
E, honestamente, num mundo obcecado por estar sempre em movimento, ficar parado com intenção virou quase um ato de rebeldia.
quieto
imperfeito
real
Se você leu até aqui, não deixe de assistir "Perfect Days (2023)".
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O resto, é seu.
Feliz Natal para quem celebra o Natal. Ho Ho Ho
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