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por Paiva

Feb 01 • 3 min read

você não tem problema de foco. você tem um ambiente hostil.


abri o email errado hoje

Esses últimos dias, tenho passado mais tempo na estação de leite.

O trabalho é simples de explicar. Difícil de executar.

Fazer oitocentos drinks por hora. Rápido. Consistente. Sem perder qualidade.

Latte. Cappuccino. Flat white. Cortado. Foco na textura. Na temperatura. Na latte art.

E, ao mesmo tempo, um terceiro olho no cliente.

No shift de hoje, reparei nesse cara na minha frente.

Pressa demais para um café.
Pressa demais para ficar ali.

Ele não dizia nada, claro. Mas o corpo entregava. O pé balançava sem parar. O celular era desbloqueado pela terceira vez em dez segundos.

Nada tinha mudado na tela. Dava pra ver.

uma ansiedade sem endereço

Existe um tipo de ansiedade que vem da sensação de que algo sempre está prestes a acontecer. Mesmo quando não está.

O pedido já foi feito. O café está saindo. Nada exige reação. E ainda assim o corpo permanece em alerta.

Com a respiração curta e no topo.

Como se relaxar fosse um erro. Ou desconhecido. Como se perder dois segundos fosse perder alguma coisa maior, mesmo sem saber o quê.

Hoje a gente mede tudo.

O alcance. O engajamento. O layout. A ferramenta. O template. O tempo. O retorno...

E ignora o que realmente pesa.

Porque o que pesa dá medo. O Instagram e YouTube ajudaram a normalizar isso. O futuro virou uma planilha mental.

Cada microdecisão parece uma alavanca. Cada detalhe, um oráculo.

É reconfortante. Dá a sensação de controle. E, ao mesmo tempo, adoece.

Não é coincidência que ansiedade e depressão tenham virado linguagem comum entre jovens e jovens-adultos.

É fragilidade individual. É ambiente. Quando tudo parece decisivo, nada é respirável.

ansiedade vem do cálculo


De calcular tudo. De ter que calcular tudo. Medir tudo. E eu entendi isso tarde.


Entendi no dia em que errei uma latte art simples.

Quantidade de leite errada. Pressa. Cliente esperando. Nada de épico. Nada de “momento de virada”.

Só um café ruim. O barista que serviu o cliente me olhou e disse, sem drama:

“JP, you can do better”

Aquilo me desmontou. Não porque ela foi direta. Ela estava focado no óbvio.

O café.

Aquilo ficou comigo mais tempo do que o erro. Porque ali não tinha estratégia. Nem contexto. Nem leitura de cenário.

Apenas atenção colocada no lugar certo.

Quando saí de tecnologia, achei que estava trocando de carreira.

Na prática, estava trocando de lente. Passei anos treinando o olhar para sinais pequenos. Índices. Indicadores. Métricas que prometiam antecipar o futuro.

O gesto certo. O formato certo. O timing certo. Como se o resultado estivesse escondido num detalhe microscópico.

Esse tipo de lógica contamina tudo.

Currículos impecáveis. Sites lindos. Apresentações afiadas. E um trabalho que não sustenta o primeiro contato.

Bonito por fora.
Raso na hora H.

no café, isso aparece rápido


Dá pra sentir quando quem prepara já sentou à mesa.

Quando já provou o próprio trabalho.
Quando sabe como aquilo chega do outro lado.

Manteiga dura denuncia descuido. Textura errada entrega pressa. Extração mal feita não se esconde.

O corpo percebe antes da cabeça. E trabalho consistente nasce desse lugar.

Pouco glamour.
Pouca validação imediata.

Um gesto repetido até ficar simples.
Simples até parecer óbvio.

Enquanto acontece, quase ninguém nota.

É por isso que tanto conselho de internet falha. Porque promete atalhos para algo que só aparece com permanência.

Boa música circula sozinha.
Comida bem feita se espalha.
Trabalho honesto encontra caminho.

Não rápido. Mas encontra.

e hoje isso soa antiquado


Num mundo que exige prova antes da entrega. Narrativa antes da experiência. Contexto antes do contato.

E o corpo continua sabendo. No café, não tem como terceirizar isso.

Cardápio não salva distração.
Storytelling não corrige leite queimado.
Algoritmo nenhum aquece manteiga dura.

Talvez o cansaço coletivo venha daí. Da tentativa constante de prever em vez de sustentar.

De ajustar superfícies para não tocar o essencial. O essencial pede presença, e presença cobra tempo

No fim da tarde, quando a loja esvazia, eu limpo a bancada devagar.

Sem fone. Sem pressa. Um gesto pequeno. Quase invisível. Mas suficiente para reorganizar algo aqui dentro.

Talvez baste isso.

Menos cálculo antecipado. Mais cuidado imediato. Menos promessa. Mais contato.


Menos “ter que medir tudo”.

Mais “o que está na minha frente?”

Esse e-mail termina aqui.
O resto, é seu.

@paiva // @jppaiva._ // paiva.me

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