o conselho que ninguém quer ouvir
Principalmente se você tem 24 anos.
No meio do shift, entre um café e outro, Michael, um dos outros baristas, me fez uma pergunta.
Uma pergunta honesta.
“Por que você não ficou nos EUA depois do seu MBA em Boston?”
Respondi rápido. Visto. Vida. Caminhos que fecham.
Logo depois, outra pergunta.
“Que conselho você daria pra alguém pensando em fazer uma faculdade de negócios?”
Eu disse “just don’t” com um sútil ar esnobe, não vou mentir. Automático demais, eu percebi logo em seguida.
Na minha cabeça, ele falava de MBA. Não do MBA em si, mas daquele MBA feito por inércia. Pacote caro. Porque é o "passo natural da carreira". Promessa embalada a vácuo.
Ele continuou. Especificou. Não era MBA. Era faculdade mesmo. E só aí eu entendi.
Esse “alguém” não era um cenário hipotético. Era ele mesmo.
Michael na verdade é um nome fictício pra proteger a identidade desse barista, óbvio.
Mas ele tem 24 anos. Fez um ano de finanças e largou. Seu sonho abrir uma padaria.
Desde o primeiro mês em que comecei no Nemesis, ele falava disso.
Mas agora havia outro pano de fundo. Dinheiro. Emprego. Segurança. Agora ele questiona se faz sentido "fazer dinheiro primeiro."
E então, uma pergunta que devia estar martelando a cabeça dele por meses.
“Como arrumar um trabalho sem experiência e sem diploma?”
Pergunta justa, mas difícil. Honesta, de novo.
michael é espelho
Nunca foi tão comum questionar a própria carreira. E nunca foi tão difícil decidir.
Não só grandes decisões. Até as pequenas.
Escolher um filme pra assistir virou um quebra-cabeça de 2.000 peças. Tem que combinar com o humor, o dia, a fase, o algoritmo.
Agora imagina escolher profissão.
Trabalhar com o que gosta ou com o que paga as contas? Arriscar agora ou depois? Estudar mais ou fazer? Esperar ou pular?
Existe opinião pra tudo. Expert pra tudo. Checklist pra tudo. E quando tudo parece opção, qualquer decisão vira risco.
Conforme a conversa avançava, ficou claro. Dentro da realidade dele, querer ganhar mais fazia sentido, e era preciso. Dinheiro era importante.
Justíssimo. Eu fui honesto.
Alguns mercados ainda exigem diploma. Alguns exigem certificação. Outros, não.
Mas quase todos exigem algo que ninguém ensina direito.
networking
Não como buzzword. Como prática.
Contei como virei barista sem cumprir os “pré-requisitos”.
Contei como consegui meu último trabalho corporativo ainda morando no Brasil.
Contei como passei anos conversando sem pedir nada.
Só perguntando. Observando. Criando contexto. Ser visto para ser lembrado.
A internet vende a ideia de que tudo se resolve com mais.
Mais diploma. Mais certificado. Mais curso. Mais conteúdo. Mais ferramenta. Mais equipamento.
E quando você não tem tudo isso, parece que você está atrasado ou incapacitado.
A conta não fecha. E é aí que nascem as crises. Ansiedade. Inferioridade. Exaustão.
Não porque você é incapaz. Mas porque está tentando decidir ouvindo todo mundo ao mesmo tempo.
Em algum momento, Michael me perguntou:
“Mas como você entendeu tudo isso?”
Não entendi. Entendo. Não foi fórmula. Nem insight genial. Foi clareza construída (ou sendo construída).
Terapia ajudou e ajuda. Muito. Mas escrever foi decisivo. Escrever sem público. Sem regra. Sem performance.
Escrever pra nomear o que pesa. Pra organizar o caos interno.
Como uma criança aprendendo a usar palavras em vez de gritar.
"deixa de ser irresponsável, menino"
Era assim que minha mãe chamava a atenção quando eu tomava alguma decisão questionável dentro de casa.
Desde sair as 9 da noite pra beber cerveja com os amigos à não levar o casaco em dia de chuva.
Filhos... cada ano que passa, vamos criando paredes com tijolinhos que moldam nossa personalidade, hábitos, e inclusive... nossas decisões.
Até construirmos paredes altas demais pra continuar enxergando pra onde estamos indo.
Em abril de 2025, escrevi pela primeira vez onde eu queria estar em 10 anos.
Não como plano. Como permissão. Sonhei e foi divertido. Foi um texto simples. Íntimo. Libertador.
Eu senti as paredes diminuindo de altura.
E foi ali que minha transição começou. Não com um plano. Mas com clareza suficiente pra assumir responsabilidade.
Talvez o maior problema da nossa geração não seja falta de opção. É excesso de voz.
Nunca tivemos tantos caminhos possíveis. Tanta gente dizendo o que fazer. Tanto “expert” explicando como viver.
O resultado não é liberdade. É paralisia.
A gente escuta tanto que começa a duvidar da própria intuição. A gente pesquisa tanto que desaprende a decidir.
Não porque somos fracos. Mas porque responsabilidade exige silêncio e coragem.
Exige parar de perguntar pra fora e sustentar uma escolha por tempo suficiente pra ver o que ela vira.
Hoje, qualquer decisão parece pequena demais diante de tantas oportunidades “melhores”. Qualquer caminho parece errado quando comparado com o caminho ideal de alguém.
Mas responsabilidade não nasce do melhor cenário. Nasce do compromisso.
De escolher algo imperfeito e permanecer ali tempo bastante
pra aprender, errar, ajustar.
em expert.
Sem plateia. Sem atalho.
NADA é perfeito. Nem você, nem sua família, nem seu emprego, nem seu chefe, nem sua carreira. Só o seu cachorro... se você tiver um.
De novo: responsabilidade nasce do compromisso de escolher algo imperfeito e permanecer ali tempo bastante pra aprender, errar, ajustar.
E quando você menos espera está vivendo seu sonho de 10 anos atrás.
Esse e-mail termina aqui.
O resto, é seu.
@paiva // @jppaiva._ // paiva.me