era 2a feira
Eu estava de folga. Fui tomar um café. Fila curta. Três pessoas na minha frente.
Um cara de fone mexia no celular num looping nervoso. Uma mulher discutia orçamento no viva-voz. Atrás de mim, alguém abriu o Instagram e reagiu alto demais
“Brasil é o País Criativo do Ano.”
Print na tela. Fonte gringa. Legenda animada.
O post subiu. Outro story entrou. A fila andou.
pedi o café e esperei
Peguei o copo quente com as duas mãos.
Enquanto mexia, fiquei preso naquela cena pequena: um reconhecimento global atravessando o mundo e chegando ali como mais um conteúdo disputando atenção.
Criatividade transformada em novidade. Em selo. Em slide de apresentação.
Por aqui, essa palavra sempre circulou em outro ritmo.
Criatividade no Brasil nasce cedo.
Antes de curso. Antes de método formal. Antes de qualquer vocabulário sofisticado.
Ela aparece quando falta recurso. Quando o plano quebra. Quando o contexto muda no meio do caminho.
Mistura.
Improviso.
Leitura rápida do ambiente.
Um repertório construído na prática. De fazer muito com pouco. De ajustar enquanto executa. Nada disso cabe direito num post quadrado.
O café esfriava enquanto eu pensava nisso.
Hoje, criar acontece em ambientes desenhados para corte constante. A cada interrupção, o fio se rompe.
e o corpo paga a conta
Demora cerca de 23 minutos para a mente voltar ao ponto onde estava.
Não para começar algo novo.
Para retomar.
23 minutos perdidos a cada alerta. A cada vibração. A cada “rapidinho”.
No fim do dia, o cansaço aparece sem obra entregue.
A tecnologia organiza o tempo em estímulos curtos. Treina reação. Premia visibilidade.
Movimento vira prova de trabalho. Barulho vira sensação de avanço.
E muita gente chama isso de produtividade.
No cotidiano, o impacto é direto.
Ideias longas pedem continuidade. Projetos pedem permanência. Pensamento pede espaço defendido com intenção.
Produtividade real se constrói em blocos preservados. Tempo que não entra em disputa. Atenção tratada como recurso finito.
Menos entradas ao longo do dia. Mais tempo dentro da mesma ideia.
É assim que algo ganha forma.
talvez o tal “molho brasileiro” venha daí
Da leitura fina de contexto. Da adaptação constante. Da capacidade de criar mesmo quando o ambiente exige reação o tempo inteiro.
Criar enquanto tudo se move.
O mundo colocou nome agora.
Aqui, isso sempre foi prática diária.
Terminei o café. A fila já tinha sumido. O post também. A ideia ficou.
Esse e-mail termina aqui.
O resto, é seu.
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