eu tenho uma obsessão
Meio específica, eu acho. Eu adoro assistir fitas VHS antigas.
Minha mãe tinha uma câmera. Daquelas grandes, pesadas, que cansava as mãos.
E ela filmava tudo.
O curioso é que ninguém parecia perceber a câmera. Não existia essa consciência estranha de estar sendo observado.
Ninguém ajustava postura. Ninguém fazia pose. A gente simplesmente vivia.
Tem uma fita que eu volto sempre.
Meu aniversário de seis anos. Tema do Super-Homem.
A festa já tinha acabado. Os adultos estavam em outro cômodo. Sobrou meia dúzia de crianças espalhadas pela sala.
O chão estava coberto de bexigas de encher. Amassadas.
Algumas já meio murchas. Outras inteiras, esperando nada.
E eu ali. Chutando bexiga como se fosse bola de futebol. Pulando sem motivo. Estourando uma, gargalhando.
Fazendo careta pra câmera da minha mãe.
Não havia jogo.
Não havia regra.
Não havia objetivo.
Era só um corpo em movimento.
Eu ria de absolutamente nada. Uma bola de encher era o suficiente.
o mundo tinha bordas
Por muito tempo eu achei que isso era felicidade infantil.
Ausência de responsabilidade. Desconhecimento do mundo. Hoje eu acho que era outra coisa.
Era foco.
Poucas coisas disponíveis. Poucas distrações entre o impulso e a ação.
Uma TV que precisava esquentar. Poucos canais. Um horário específico em que as coisas simplesmente aconteciam, ou você perdia.
O mundo tinha bordas. E cabia dentro do dia. Eu cabia dentro do dia.
Em algum momento da vida, essas bordas desaparecem.
As opções se multiplicam. As vozes se sobrepõem. As possibilidades nunca terminam. E, aos poucos, tudo vira um projeto mental.
Nada começa simples. Nada termina leve.
e estou vivendo isso agora
Não como conceito. Como rotina.
Tenho decisões importantes para tomar para o próximo ano.
Decisões que mexem com trabalho, dinheiro, direção.
Decisões que não se resolvem com mais leitura. Nem com mais conversa. Nem com mais simulação.
O problema não é falta de caminho. É caminho demais aberto ao mesmo tempo.
A cabeça vai longe.
Volta.
Abre cenários.
Fecha.
Reabre.
Nada dói na hora. Só pesa. Uma decisão adiada aqui. Outra ali. E quando percebo, estou cansado sem ter caminhado.
Quando a gente é criança, decidir parece leve. Não porque as escolhas são irrelevantes, mas porque o chão está garantido.
Hoje o chão é construído em movimento.
Eu e a Marcella, minha esposa, estamos construindo uma vida juntos. Apoio mútuo. Responsabilidade compartilhada.
Isso muda o peso das decisões.
Elas deixam de ser só sobre vontade. Passam a ser sobre consequência.
E, em algum ponto, fica claro: ninguém decide por você.
teve uma noite recente
Eu estava deitado na cama. Luzes apagadas. Aquele cansaço que não é só físico.
Quando o sono não vem, minha cabeça atravessa a cidade inteira e volta pro mesmo lugar. E nesse vai-e-volta silencioso, a cabeça para num redemoinho e fica lá... girando.
Se eu não decidir, nada acontece.
Se eu não me arriscar, ninguém se arrisca por mim.
Se eu não andar com medo mesmo, o medo não diminui.
Foi revelação. Foi constatação. As coisas não se organizam sozinhas. Elas, em algum momento, precisam passar por você.
Ou ficam onde estão.
Por muito tempo eu achei que algo externo ia alinhar tudo.
Um sinal. Um convite. Uma oportunidade perfeita.
Hoje eu entendo que mudança não chega pronta. Ela começa torta. Insegura. Imperfeita. Ela passa pelo corpo cansado. Pela cabeça confusa. Por decisões feitas sem garantia.
Talvez a gente não precise de mais informação. Nem de mais opinião. Nem de mais conteúdo.
Talvez precise recuperar algo mais básico.
a capacidade de decidir sem plateia
Tecnologia amplia tudo. Talento, acesso, velocidade.
Mas também embaralha.
Confunde. Premia quem performa melhor, não necessariamente quem constrói melhor.
Eu não compro mais a ideia de que mais opção resolve. Nem de que esperar mais clareza traz paz.
Em algum ponto, decidir vale mais do que otimizar.
Quando eu falo em voltar a ser feliz como antes, eu estou falando de ritmo. De carregar o peso de hoje sem virar pedra.
De viver com mais leveza por dentro, mesmo com responsabilidade por fora.
Menos medo.
Mais firmeza.
Mais presença.
Mais caras e bocas.
Menos cálculo.
É sobre aceitar que somos donos das escolhas da nossa própria vida assim como das consequências.
E que, curiosamente, isso também é liberdade.
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O resto, é seu.
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