Nem ontem, nem amanhã
Te convido a assistir a um filme que a mensagem é o soco no estômago mais gentil e delicado que você vai receber.
“Próxima vez é próxima vez, agora é agora.”
Durante os quase 120 minutos de filme, seguimos um limpador de banheiros em Tóquio, no Japão, enquanto ele vive sua rotina tranquila e solitária, um momento de cada vez.
Não tem flashback, não tem drama forçado. É só ele, e o agora.
E isso, meus amigos, é mais poderoso do que você imagina.
Komorebi
O filme mostra como a clareza, a aceitação e até a alegria podem nascer de algo bem simples: estar presente.
Hirayama, o protagonista, parece entender isso de um jeito quase poético, mas de forma tão realista, como o conceito japonês de Komorebi - aquela luz do sol que você vê atravessar as folhas das árvores, criando sombras e brilhos que só existem ali, naquele instante.
Komorebi não dura. É breve e transitório.
E é exatamente aí que está a beleza: o filme te faz reconhecer e se entregar a esses momentos únicos.
Fita cassete 🫶
O diretor do filme, Wim Wenders, faz questão de mostrar cada detalhe do dia de Hirayama.
Desde o momento em que ele abre os olhos, rega suas plantas, entra na sua pequena van e vai para o trabalho, até as refeições simples que ele faz no restaurante do metrô.
Nada é apressado. Nada é tratado como “só mais uma cena”.
MUITO, mas muito bem produzido.
E quer saber? Isso te coloca lá, vivendo cada minuto com ele.
A trilha sonora também faz parte dessa imersão. Hirayama só ouve músicas que ele escolheu a dedo - em fitas cassetes, diga-se de passagem.
Cada faixa que toca no filme é parte do que ele realmente está ouvindo naquele momento. É como se você estivesse sentado ao lado dele, dividindo o fone.
Repetição
A rotina de Hirayama se repete: limpar banheiros, regar plantas, ouvir Lou Reed, comer um sanduíche sob uma árvore no templo.
Mas não pense que isso deixa o filme monótono, não, tá? Pelo contrário.
Cada pequeno desvio na rotina revela alguma coisa.
Um colega de trabalho que cria um laço inesperado com uma criança local. Um encontro no bar com torcedores de beisebol. Uma sobrinha que fugiu de casa, cheia de perguntas sobre o passado da família.
Esses momentos mostram como até os gestos mais simples podem ter significado quando estamos realmente presentes.
Nem açúcar, nem delírio
Não confunda presença com aquela ideia utópica de “viva como se não houvesse amanhã” ou algum papo de fuga mágica dos nossos problemas.
O nome do filme é Perfect Days e não tem nada de açucarado. Pelo contrário, é gostosamente honesto sobre a vida.
Estar presente não apaga o passado nem evita os desafios do futuro.
Mas é uma forma de carregar tudo isso sem deixar que essas coisas dominem você.
Lembrete
Todos os dias, Hirayama almoça no jardim de um templo.
Ele olha para uma árvore familiar, observa a luz atravessando as folhas e tira uma foto com sua câmera Olympus.
É uma cena quase invisível, fácil fácil de ignorar. Mas, para Hirayama, é tudo.
E talvez seja isso que Perfect Days tenta nos ensinar: a vida está acontecendo agora.
Nem ontem, nem amanhã. Agora.
Se você conseguir capturar isso - como quem tira uma foto do Komorebi - talvez descubra que o presente é o único lugar onde a beleza realmente existe.
2025 está batendo na porta já, né?
Que tal desacelerar um pouco esse final de ano?
Talvez você encontre algo especial onde menos espera.
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