fogos, praia, festas…
Todo início de ano tem um cheiro específico, agenda nova, aquele silêncio estranho antes do barulho.
Fogos, praia, festa, caos, alegria, promessas, carnaval...
e taca-lhe mais caos.
Caos organizado e caos descontrolado. Mas sempre uma mesma promessa implícita normalmente numa Segunda-Feira:
Vai ser o ano da virada. Do projeto. Do corpo. Da carreira. Da disciplina que finalmente chega.
Se não chegar… bom, você já sabe quem a gente costuma culpar.
Talvez o motivo de quase nada andar pra frente não seja falta de foco, falta de disciplina ou a famosa “força de vontade”.
Talvez nem o excesso de distração.
Nem o algoritmo.
Nem mesmo você.
Talvez seja outra coisa bem menos glamourosa. E bem menos confortável de admitir.
começo vs entusiasmo
Outro dia, cedo, ainda meio torto de sono, abri o celular antes mesmo de levantar da cama.
A esperança era de que viria alguma confirmação silenciosa de que o dia tinha começado do jeito certo. Mas nada veio.
A gente aprendeu, sem perceber, a confundir começo com entusiasmo.
Se não dá aquele frio bom na barriga, parece que não vale.
Se não empolga, não presta.
Se não anima, a gente adia.
E o celular recompensa exatamente isso.
O impulso.
O pico.
O anúncio.
A empolgação inicial.
Mas ele não paga nada pra quem continua depois. A realidade é uma, curta e direta:
Entusiasmo é um combustível curto.
Ele não aguenta longas distâncias. Ele te tira do lugar, mas não sustenta o motor.
Tem gente que entendeu isso cedo e decidiu continuar mesmo assim.
quando desistir?
Existe um mito moderno que quase ninguém questiona.
O de que o resultado e qualidade do que você faz dependem diretamente do quanto você quer fazer aquilo.
Como se dias bons produzissem trabalhos bons. E dias ruins, trabalhos ruins.
Não funciona assim.
A maioria das pessoas que faz coisas relevantes descobriu isso cedo ou do jeito difícil.
O texto escrito sem vontade não denuncia o mau humor.
O treino feito sem prazer não entrega o tédio.
O estudo feito no automático ainda constrói base.
Chris Bosh, um ex-jogador da NBA, uma vez disse que, quando começa a doer, ele se faz uma pergunta simples:
“Quantas pessoas desistiriam neste momento, agora?”
Ele responde ficando e continuando.
O que muda não é o resultado. É quem ficou pelo caminho. Porque quase todo mundo para no mesmo ponto invisível.
Um muro psicológico discreto. Um incômodo leve. Uma vontade de fazer qualquer outra coisa menos aquilo.
Responder um e-mail.
Organizar a casa.
Iniciar um projeto.
Esperar a próxima Segunda-Feira...
O famoso “Segunda eu começo”.
e como resolve isso?
Tecnologia não nos deixou preguiçosos. Ela nos deixou excessivamente sensíveis.
Sensíveis ao desconforto. À fricção. Ao tédio. À "grama do vizinho é mais verde".
Ela nos treinou pra acreditar que:
se algo não flui, está errado.
se não empolga, não é pra você.
se não dá prazer imediato, não compensa.
Isso não é evolução. É um downgrade conveniente.
Tem gente que acorda há décadas no mesmo horário, coloca a roupa, sai de casa e vai fazer algo que nunca gostou.
Não é por prazer. É porque sabe que, se não fizer nos dias ruins, não vai conseguir fazer nos dias bons.
Então talvez, em 2026, a pergunta não seja
Mas algo bem menos inspirador e muito mais útil.
Uma forma mais honesta de começar o ano. Sem hype. Sem discurso. Sem personagem novo.
Rotina não virou vilã por acaso. Ela é o anti-algoritmo.
Não performa.
Não viraliza.
Não dá sensação de progresso imediato.
Mas é a única coisa que atravessa o ano inteiro mesmo sem virar trend no TikTok ou no Instagram.
o quanto você quer?
Não é sobre sofrer todo dia. Nem sobre romantizar esforço. É só aceitar uma coisa "simples":
TODO DIA É TUDO O QUE EXISTE.
Se você atravessar o ano sem depender de entusiasmo, ele chega no fim diferente.
Mais quieto.
Mais sólido.
Mais seu.
Então começa agora. Não salva. Não anota. Não planeja.
Só responde este e-mail com uma frase só:
“O que você está disposto a fazer mesmo quando não quiser?”
Essa á a pergunta mais honesta que você pode fazer neste início de ano.
Porque é aí que as metas deixam de ser promessas bonitas
e viram prática silenciosa.
Sem performance. Sem promessa pública. Só você, do outro lado da tela, começando pelo básico e com comprometimento.
Esse e-mail termina aqui.
O resto, é seu.
@paiva // @jppaiva._ // paiva.me