ainda sinto falta
Essa semana eu abri o Final Cut.
Não para editar. Só abri. Aquela tela cinza. As pastas. Os projetos antigos. Uma timeline esquecida em algum lugar do computador, cheia de cortes que, na época, pareciam absolutamente importantes.
Fiquei olhando. E bateu saudade.
Saudade de editar até tarde e perceber que uma cena finalmente tinha encontrado o lugar dela.
Saudade de ficar 20min procurando uma música que ninguém vai saber que você passou 20min procurando.
Saudade daquele momento ridículo em que você mexe um corte dois frames para a esquerda e, de repente, tudo encaixa.
A imagem.
A música.
A respiração.
O silêncio.
É essa.
E existe uma sensação muito específica em terminar um vídeo que você realmente gosta.
Você assiste uma última vez.
Já sabe cada corte.
Já sabe cada som.
Já sabe exatamente o que vai acontecer.
Mesmo assim, quando termina, dá aquele friozinho na barriga.
Uma espécie de orgulho meio infantil.
Eu sinto falta disso. Sinto falta de ser um video creator.
E eu ainda vou voltar.
só não hoje
Hoje tem café. Muito café. Tenho tentado aprender tudo que consigo.
Café. Hospitalidade. Operação de FOH. Estoque. Escala. Treinamento. Liderança. Como organizar uma equipe. Como resolver um problema sem criar três outros. Como perceber que alguma coisa está errada antes que alguém precise reclamar. Como manter o chão funcionando quando a loja está cheia e todo mundo está um pouco cansado.
Tem uma quantidade absurda de coisas que eu ainda não sei. E, pela primeira vez em muito tempo, isso não me incomoda.
Eu gosto de estar aprendendo. Talvez porque exista uma diferença enorme entre estar perdido e estar aprendendo uma coisa difícil.
Por fora, os dois podem parecer iguais. Você chega em casa cansado. Com alguma dúvida. Com alguma coisa que deu errado. Com a sensação de que talvez você devesse ter feito melhor.
Mas existe uma pequena diferença por dentro.
Você sabe por que está ali. E isso ajuda.
Também existe um bebê chegando. O que deixa tudo um pouco mais sério.
Minha margem para distração diminuiu bastante.
Eu não tenho vontade de passar os próximos anos tentando fazer cinco coisas acontecerem ao mesmo tempo e depois reclamando que nenhuma delas aconteceu do jeito que eu queria.
Já fiz isso. Não recomendo.
Aprendi, da pior forma possível, que quando você transforma cinco coisas em prioridade, você não tem cinco prioridades.
Você tem uma lista de coisas importantes e uma vida tentando decidir, na prática, qual delas vai morrer primeiro.
então eu escolhi
Por enquanto, é isso aqui.
Quero aprender café.
Quero aprender hospitalidade.
Quero aprender a liderar.
Quero entender operação de verdade.
Quero ficar bom nisso. E quero fazer isso antes de sair correndo atrás da próxima coisa.
Essa parte parece simples. Na prática, é uma merda. Principalmente nos dias ruins.
Os dias bons são fáceis. Os dias bons fazem você acreditar em tudo. Você termina um turno e sente que alguma coisa encaixou.
Uma conversa com alguém do time foi boa. Você tomou uma decisão rápida e acertou. Uma pessoa que estava aprendendo finalmente conseguiu fazer alguma coisa sozinha. Um problema apareceu e você resolveu antes que virasse um incêndio. Você calibra um espresso e ele sai bonito.
Você olha para a máquina. Olha para o relógio. Olha para a fila. E, por algum motivo, tudo está funcionando.
Você vai embora cansado, e pensa:
“É isso. Eu estou aprendendo. Só continua.”
Esses dias são maravilhosos. Mas eles não ensinam tanta coisa.
Os dias ruins ensinam. Você erra. Alguém erra. Um sistema não funciona. Uma pessoa não segue alguma coisa que você passou horas criando. Você esquece alguma coisa. Você perde a paciência. Você percebe, depois, que poderia ter lidado melhor.
E aí você tem duas opções.
Pode encontrar alguma coisa para culpar. Ou pode engolir o erro. Sem choro. Sem ego. Sem aquele pequeno orgulho tentando salvar a nossa dignidade.
“Certo. Isso aconteceu. O que eu faço agora?”
Eu gosto cada vez mais dessa pergunta.
tem uma pessoa
Ela trabalha no BOH do BamBam.
Ela é um amor. De verdade. Mas praticamente todos os dias existe alguma coisa.
O lugar poderia ser melhor. O trabalho poderia ser diferente. Ela não deveria precisar lidar com determinada coisa. Ela não deveria estar fazendo aquilo.
E, de novo, eu não sei o que essa pessoa vive. Não sei quais problemas ela carrega. Não sei quais injustiças aconteceram antes de eu chegar. Não sei o que é responsabilidade dela e o que simplesmente caiu no colo dela.
Então não quero julgar.
Mas comecei a perceber uma coisa em mim mesmo.
É muito fácil transformar a própria vida numa sequência de coisas que aconteceram com você.
O cliente fez.
O chefe fez.
O amigo fez.
A empresa fez.
O mercado fez.
A vida fez.
Às vezes é verdade.
A vida realmente faz coisas com a gente. Tem coisas que simplesmente acontecem.
Você perde um emprego. Um relacionamento acaba. Um plano dá errado. Alguém decepciona você. Uma oportunidade não vem.
Um bebê está chegando e, de repente, você percebe que aquele plano maravilhoso que tinha para os próximos três anos talvez precise ser redesenhado.
A vida tem uma quantidade impressionante de coisas que não pedem nossa autorização.
Mas ainda sobra uma pergunta pequena.
E agora?
Tenho pensado muito nisso porque hoje eu gerencio principalmente gente entre 18 e 25 anos. Eu tenho 36.
Meu General Manager tem praticamente a minha idade. E parte do meu trabalho é estabelecer o padrão no chão.
Então eu criei sistemas.
Pequenas regras. Processos. Formas de fazer as coisas. Coisas que, na minha cabeça, deveriam tornar a operação melhor.
E, às vezes, alguém não segue.
Às vezes uma pessoa esquece. Às vezes várias pessoas fazem diferente. Às vezes até quem está acima de mim não segue exatamente aquilo que eu pensei que deveria ser seguido.
E aí existe uma reação muito fácil:
Eu fiz a minha parte.
Eu expliquei.
Eu escrevi.
Eu avisei.
Eles que não estão fazendo.
Só que, quanto mais eu penso nisso, mais essa resposta me parece uma armadilha.
Porque se eu criei o sistema e ninguém segue o sistema, talvez o problema não esteja somente nas pessoas.
Talvez esteja em mim. Talvez eu não tenha ensinado direito. Talvez eu tenha explicado o quê sem explicar o porquê.
Talvez o processo seja ruim. Talvez eu tenha confundido determinar alguma coisa com ensinar alguma coisa.
E essa última diferença é enorme.
criar regra é fácil
Você escreve. Organiza. Imprime. Cola na parede. Pronto. Existe uma regra.
Ensinar uma regra é outra coisa.
Você precisa repetir. Observar. Explicar. Corrigir. Dar contexto. Perceber quando alguém não entendeu. Perceber quando entendeu, mas não concordou. Perceber quando concordou, mas está cansado. Perceber quando o sistema é bom no papel e uma porcaria às 11h47 da manhã com uma fila até a porta.
E depois fazer tudo de novo.
É aí que eu estou começando a entender liderança em hospitalidade. Não como a pessoa que sabe o que deve ser feito.
Isso é relativamente fácil.
Liderança começa quando você precisa fazer outras pessoas conseguirem fazer aquilo também.
E, pior ainda, conseguirem fazer aquilo quando você não está olhando.
Essa parte dói um pouco.
Porque você perde a fantasia de que basta ter razão.
Não basta.
Você pode estar absolutamente certo sobre alguma coisa e ainda assim ter falhado completamente em fazer aquela coisa existir.
Isso é uma lição difícil para alguém que passou boa parte da vida fazendo coisas sozinho.
porque não volto amanhã?
Talvez seja justamente por isso que eu esteja gostando tanto dessa fase.
No YouTube, eu consigo controlar quase tudo.
Se o roteiro está ruim, eu reescrevo.
Se a imagem está ruim, eu filmo de novo.
Se a edição está ruim, eu abro a timeline.
Se a música não funciona, procuro outra.
Posso passar seis horas mexendo em três segundos.
No café, não.
No café existe o resto do mundo.
Existe uma pessoa cansada.
Existe outra aprendendo.
Existe alguém que esqueceu.
Existe alguém que está fazendo de um jeito diferente.
Existe o cliente.
Existe a fila.
Existe o relógio.
Existe o leite acabando.
Existe a máquina.
Existe o estoque.
Existe a vida acontecendo em tempo real.
Você não pode apertar Command + Z numa manhã de sábado.
Então você aprende.
Respira.
Resolve.
Volta.
E amanhã tenta fazer um pouco melhor.
É curioso pensar que, enquanto sinto falta de editar vídeos, estou aprendendo uma coisa que talvez um dia apareça nos vídeos.
Talvez eu volte para a câmera diferente.
Talvez eu volte entendendo melhor o que significa construir alguma coisa com outras pessoas.
Talvez eu volte sabendo que nem tudo precisa ser controlado.
Talvez eu volte com mais histórias.
Mais cicatrizes.
Mais café na roupa.
Mais coisas que deram errado.
Mais coisas que deram certo.
Por enquanto, eu sinto saudade.
E tudo bem.
Não preciso transformar toda saudade em ação.
Às vezes uma coisa pode continuar sendo importante mesmo enquanto está parada.
O meu canal continua ali.
As câmeras continuam ali.
As músicas continuam existindo.
As timelines antigas continuam cheias de pequenos cortes que um dia fizeram meu coração acelerar.
E eu continuo aqui.
Aprendendo outra coisa.
Tentando fazer um bom trabalho.
Tentando ser alguém em quem outras pessoas possam confiar.
Tentando chegar em casa com energia suficiente para ser marido e pai.
Tentando não terceirizar a responsabilidade pelas coisas que estão nas minhas mãos.
E, nos dias ruins, tentando levantar rápido.
Sem fazer drama.
Sem inventar desculpa.
Olhar para o que aconteceu.
Engolir o erro.
Aprender alguma coisa.
Voltar para o chão.
Talvez seja só isso que eu esteja fazendo agora. Voltando para o chão.
Um turno de cada vez.
Um espresso de cada vez.
Uma decisão de cada vez.
Um dia de cada vez.
E, algum dia, quando eu abrir o Final Cut de novo, talvez eu encontre uma timeline vazia.
Talvez eu coloque uma música.
Talvez eu filme alguma coisa.
Talvez eu faça aquele primeiro corte.
E talvez, depois de passar horas mexendo em uma sequência que ninguém além de mim vai perceber, eu assista tudo de novo.
A música entra.
A imagem corta.
Tudo encaixa.
E eu sinto aquele friozinho no estômago.
Aquele mesmo. De novo.
“Nossa. Eu ainda sei fazer isso.”
Esse e-mail termina aqui. O resto, é seu.
@paiva // @jppaiva._ // paiva.me