eu tenho uma péssima notícia
Talvez você não esteja atrasado.
Talvez você só esteja tentando abrir uma coisa que ainda não deveria estar aberta.
Eu sei. É uma frase irritante.
Também fiquei irritado quando pensei nela.
Eu estava no sofá, com o computador no colo, olhando pela terceira vez para uma pasta cheia de projetos que ainda quero fazer.
Aquela pasta é quase um pequeno museu das minhas ambições. Tem ideia de vídeo. Tem nome de negócio. Tem projeto que eu comecei a desenhar e abandonei. Tem coisa que eu salvei porque, naquele momento, parecia genial. Tem até algumas ideias que continuam boas.
E essas são as piores.
Porque quando você olha para uma ideia boa que está parada há dois anos, a primeira coisa que pensa é:
“O que eu estou esperando?”
Eu costumava achar que essa era uma boa pergunta.
Hoje não tenho tanta certeza.
Eu passei muito tempo achando que o problema era falta de coragem.
Se eu queria uma coisa, deveria tentar.
Então eu tentava.
Se aparecia uma oportunidade, eu ia.
Se tinha uma ideia, começava.
Se alguém estava fazendo alguma coisa que eu achava interessante, eu pensava:
E algumas vezes eu conseguia. Só que isso criou um problema.
Eu comecei a acreditar que querer uma coisa e estar preparado para ela eram praticamente a mesma coisa.
Não eram.
E eu demorei bastante para perceber.
fabricando seu timing
Eu estava trabalhando em uma coisa que, na minha cabeça, já tinha uma forma muito definida.
Eu sabia onde queria chegar. Sabia mais ou menos como deveria funcionar. Já conseguia imaginar o resultado. Só tinha um detalhe inconveniente:
eu ainda não sabia fazer aquilo direito.
Mesmo assim, fui.
Porque eu tinha vontade.
Porque parecia uma oportunidade.
Porque eu estava convencido de que a experiência viria enquanto eu fazia.
E veio. Só que veio junto com uma série de problemas que eu ainda não sabia resolver.
A experiência não chegou como eu imaginava. Ela chegou na forma de erro. De dúvida. De coisa que não funcionava. De perceber, no meio do caminho, que eu tinha pulado umas três etapas.
E isso aconteceu mais de uma vez.
Hoje eu consigo olhar para algumas dessas situações e perceber que eu estava tentando fabricar o meu próprio timing na força.
Eu queria chegar. Queria provar. Queria construir. Queria ver acontecendo. E, quando não acontecia, eu procurava uma explicação.
Faltou dinheiro.
Faltou oportunidade.
Faltou gente.
Faltou sorte.
Às vezes faltava mesmo.
Mas algumas vezes faltava uma coisa muito menos interessante de admitir:
eu ainda não estava pronto.
Essa frase é péssima para quem é ansioso. Porque ela não dá nenhuma ação imediata.
Você não consegue transformar “ainda não estou pronto” em uma tarefa no Notion. Não tem checklist. Não tem KPI. Não tem gráfico subindo.
Você só precisa continuar.
continuar aprendendo é estranho
Principalmente hoje. A internet transformou quase tudo em espetáculo de velocidade.
Todo mundo está lançando.
Todo mundo está construindo.
Todo mundo está mudando de carreira.
Todo mundo parece ter descoberto alguma coisa às 5h da manhã enquanto você estava dormindo.
Você abre o celular e cinco minutos depois está questionando a trajetória inteira da sua vida.
Eu já fiz isso. Mais de uma vez. E existe uma coisa particularmente cruel nisso:
você começa a achar que o seu problema é velocidade.
Talvez eu precise fazer mais.
Publicar mais.
Aprender mais rápido.
Ganhar mais.
Começar logo.
Aproveitar a oportunidade.
Antes que ela passe.
Antes que alguém faça primeiro.
Antes que eu fique para trás.
Só que existe um problema nessa lógica. Você pode chegar muito rápido em um lugar onde ainda não sabe ficar.
a diferença que antes não existia
Eu comecei a perceber isso trabalhando com café.
No início, eu queria saber. Queria acertar. Queria entender por que um espresso estava bom e outro não.
Depois de um tempo, comecei a perceber que certas coisas simplesmente precisam acontecer muitas vezes.
Muitas vezes.
Você ajusta o moinho.
Prova.
Ajusta de novo.
Prova.
Pergunta.
Observa.
Erra.
Faz outra vez.
Prova.
Até que um dia você percebe uma diferença que antes não existia para você.
E isso é difícil de explicar para alguém.
Porque não aconteceu nada espetacular. Você só ficou um pouco melhor. Só que esse “um pouco melhor” vai se acumulando.
E, depois de algum tempo, você começa a tomar decisões diferentes. É aí que eu acho que o timing começa a aparecer.
Porque timing tem uma parte que ninguém consegue controlar.
A oportunidade aparece ou não.
A pessoa aparece ou não.
O dinheiro aparece ou não.
O momento histórico ajuda ou atrapalha.
Tem coisa que simplesmente acontece fora da nossa agenda. Mas existe outra parte que a gente constrói enquanto acha que está apenas esperando.
Você trabalha.
Aprende.
Erra.
Conhece gente.
Faz projetos pequenos.
Aprende a trabalhar com pouco.
Aprende a trabalhar com mais.
Descobre no que é bom.
Descobre no que é péssimo.
Aprende a reconhecer uma boa ideia.
Aprende a abandonar uma ideia ruim.
Aprende a perceber quando está insistindo porque acredita naquilo e quando está insistindo porque não quer admitir que deu errado.
Essa última eu ainda estou estudando.
hoje eu tenho sonhos
Vários.
Alguns continuam naquela pasta. Outros estão na minha cabeça.
Eu ainda imagino lugares que quero construir. Projetos que quero fazer. Coisas que quero colocar no mundo.
Mas, neste momento, eu tenho uma prioridade muito mais concreta.
Minha família.
Minha esposa está prestes a entrar em licença maternidade. Meu filho está prestes a nascer.
E isso mudou um pouco a minha relação com o tempo. Porque, de repente, existe uma coisa acontecendo na minha vida que não pode ser acelerada.
Você pode preparar o quarto.
Pode montar o berço.
Pode lavar as roupinhas.
Pode organizar as coisas.
Mas, em algum momento, você simplesmente espera.
E acho que isso está me ensinando alguma coisa.
Minha prioridade agora é aprender.
Aprender as habilidades que eu ainda não tenho. Aprender a montar o time certo. Aprender a trabalhar com recurso e sem recurso. Aprender a executar. Aprender a liderar. Aprender a reconhecer quando alguma coisa faz sentido. E aprender a esperar quando não faz.
Isso é especialmente difícil para mim porque eu gosto muito da sensação de estar fazendo alguma coisa.
Fazer dá a sensação de progresso. Esperar parece suspeito. Mas talvez nem toda espera seja passividade.
Às vezes você está apenas acumulando o que ainda vai precisar. Sem perceber.
tem coisas e coisas
Quando minha esposa voltar a trabalhar no ano que vem, eu não sei o que vai acontecer.
Talvez alguma ideia daquela pasta finalmente saia do papel.
Talvez apareça uma oportunidade.
Talvez eu encontre as pessoas certas.
Talvez eu tenha dinheiro para alguma coisa.
Talvez eu perceba que ainda falta aprender muito.
Talvez tudo isso aconteça ao mesmo tempo.
E talvez não aconteça nada.
Essa última possibilidade continua me deixando um pouco desconfortável. Mas está tudo bem.
Porque eu não quero mais usar a minha ansiedade como calendário.
Eu não quero que o simples fato de eu conseguir imaginar uma vida seja suficiente para me convencer de que já deveria estar vivendo aquela vida.
Tem coisa que ainda precisa de tempo.
Tem coisa que precisa de trabalho.
Tem coisa que precisa de erro.
Tem coisa que precisa de outras pessoas.
E tem coisa que, infelizmente, precisa apenas esperar o momento certo.
Hoje eu consigo deixar algumas delas quietas. A pasta continua ali. As ideias continuam ali.
Eu também. Por enquanto, tenho bastante coisa para aprender.
E amanhã provavelmente vou abrir aquela pasta de novo.
Só para olhar.
Prometo não começar nada. Provavelmente.
Esse e-mail termina aqui. O resto, é seu.
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