isso explica mais do que parece
Tenho um amigo que comprou um tênis para caminhar.
Uns dias depois ele me mandou uma mensagem.
“Descobri que esse modelo começa a perder performance depois de mais ou menos 900km.”
Respondi com um joinha. Achei que a conversa tinha acabado.
Não tinha.
Na semana seguinte ele comentou, quase de passagem, que tinha começado a registrar quantos passos dava todos os dias.
Todos.
Porque queria saber exatamente quando o tênis estaria chegando perto daquele limite.
Eu ri. Aquilo era completamente ele.
Tem gente que olha para uma informação dessas e pensa: “que curioso.”
Ele olha e pensa: “vou montar um sistema.”
É o mesmo cara que abre uma planilha por prazer. Que passa uma tarde inteira organizando dados que ninguém pediu para organizar. Que sente uma satisfação genuína quando consegue deixar um processo 12% mais eficiente.
Não existe esforço ali. Existe diversão.
E acho bonito quando alguém encontra uma coisa que faz por pura curiosidade.
Passei muito tempo achando que todo mundo funcionava mais ou menos igual.
Que a diferença entre as pessoas era dedicação. Disciplina. Experiência.
Hoje acho que não.
Acho que existe um tipo de atração que vem antes de tudo isso.
Quase uma inclinação. Uma força gravitacional.
Passei quase 15 anos trabalhando com tecnologia. Gostava. Aprendi muito. Conheci pessoas brilhantes.
Mas, olhando para trás, lembro da sensação de tentar fechar uma mala pequena para uma viagem longa.
Dá para fazer. Você distribui o peso. Enrola as camisetas. Senta em cima. Puxa o zíper. Fecha.
Só que a mala nunca parece feliz.
acho que eu também não parecia
Quando a inteligência artificial chegou, vi muita gente florescer.
Era como assistir pessoas entrarem numa fase nova de um videogame.
Enquanto alguns estavam assustados, outros estavam encantados.
Passavam noites testando ferramentas. Automatizando tarefas. Criando agentes. Era impossível não perceber o brilho nos olhos.
Meu amigo era um deles.
Aquilo parecia ter sido feito para ele.
Engraçado. Durante todos aqueles anos trabalhando com tecnologia, nunca ouvi alguém dizer:
Nunca.
Nem cliente.
Nem gestor.
Nem amigo.
Nunca ouvi alguém falar que eu fazia aquele trabalho com uma naturalidade rara.
Nos últimos oito meses atrás de um balcão de café, perdi a conta.
Às vezes o cliente fala depois de 5min de conversa.
Às vezes um barista comenta no fim do turno.
Às vezes alguém simplesmente diz:
“Você leva muito jeito com pessoas.”
No começo eu achava que era educação.
Depois achei coincidência.
Agora começo a desconfiar que coincidências repetidas têm outro nome.
Talvez a inteligência artificial tenha separado muita gente. Mas não do jeito que costumam dizer.
Ela não separou quem vai sobreviver de quem vai ficar para trás.
Ela separou quem finalmente encontrou o jogo que sempre quis jogar… de quem percebeu que estava jogando o jogo de outra pessoa.
Meu amigo provavelmente ainda sabe exatamente quantos passos faltam para trocar o tênis.
Eu continuo não fazendo ideia dos meus. Mas faz algum tempo que parei de me preocupar com isso.
tenho prestado mais atenção em outra coisa
Na sensação estranha de terminar um turno cansado, cheirando a café e leite vaporizado, e ainda assim sentir que alguma peça finalmente encaixou.
Só que, curiosamente, eu demorei para confiar nessa sensação.
Porque existe uma parte da gente que desconfia de tudo que chega fácil.
Se exige esforço, parece sério.
Se parece natural, parece simples demais para ser importante.
Então, cada vez que alguém dizia que eu levava jeito para aquilo, eu agradecia e seguia trabalhando.
Achei que era educação.
Achei que era simpatia.
Achei que as pessoas falavam aquilo para qualquer um.
Até perceber que elas continuavam falando.
É curioso como a gente leva anos tentando interpretar um único fracasso, mas faz um esforço enorme para ignorar dezenas de pequenos sinais de que talvez exista outro caminho.
Passei quase 15 anos tentando desenvolver músculos que nunca seriam meus mais fortes.
Enquanto isso, aquilo que vinha naturalmente ficou esperando, quieto, sem fazer propaganda de si mesmo. Talvez seja assim com quase todo mundo.
Os nossos maiores talentos raramente fazem barulho. Eles aparecem nas coisas que drenam menos energia.
Nas conversas que parecem curtas, mas duram uma hora.
Nas tarefas que todo mundo acha cansativas e você nem percebe o tempo passar.
Nos elogios que você escuta tantas vezes que começa a tratá-los como educação.
Talvez a inteligência artificial tenha feito isso com muita gente.
Ela colocou uma lente de aumento sobre o tipo de trabalho que desperta curiosidade genuína.
Tem gente que passou a noite inteira construindo agentes, automatizando processos, aprendendo uma ferramenta nova sem ninguém pedir.
Eu olho para essas pessoas com admiração. É bonito ver alguém encontrar um jogo que parece ter sido feito exatamente para ele.
mas ela também fez outra coisa
Ela obrigou algumas pessoas a admitir que estavam jogando porque eram boas o suficiente.
Não porque eram felizes ali.
Existe uma diferença enorme entre competência e pertencimento.
Meu amigo provavelmente continua registrando quantos passos faltam para trocar o tênis. Eu continuo sem fazer ideia de quantos quilômetros os meus têm.
Outro dia, no fim do expediente, eu estava limpando a máquina de espresso.
Já estava tudo guardado, resetado para o dia seguinte.
Só dava para ouvir o barulho do pano úmido passando no inox e algumas xícaras batendo ao longe.
Eu fiquei ali por alguns segundos.
Sem pressa.
E pensei que fazia muito tempo que eu não terminava um dia de trabalho sem sentir que tinha passado o dia inteiro tentando caber em algum lugar.
Talvez esse seja o sinal que eu demorei tanto para enxergar.
Não que eu finalmente encontrei o trabalho perfeito.
Isso provavelmente nem existe. Mas talvez eu tenha encontrado um lugar onde eu não preciso gastar tanta energia convencendo o mundo de que pertenço.
Porque, de vez em quando, o mundo responde primeiro.
E talvez valha a pena escutar.
Esse e-mail termina aqui. O resto, é seu.
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