profile

news.paiva

por Paiva

Aug 10 • 7 min read

o café me pediu uma planilha


e, de repente, eu precisei aprender AI

Na semana passada, eu estava no depósito contando copos.

Não as tampas bonitas, empilhadas na frente do balcão, que parecem parte de uma ideia organizada de café.

As tampas esquecidas.

As que ficam em caixas meio amassadas, atrás de produtos de limpeza, perto de um saco de grãos e de uma prateleira que range quando você apoia a mão.

Uma por uma.

Tampas pequenas. Tampas grandes. Copos. Leite. Guardanapos. Xícaras. Sacos. Coisas que somem sem fazer barulho e depois aparecem como uma pequena tragédia às 8h12 de uma segunda-feira.

“Acabou o leite de aveia?”

Essa frase tem o poder de mudar a temperatura corporal.

O nosso General Manager estava me ensinando a fazer estoque e pedidos.

Ele abria a planilha, olhava para uma coluna, abria o sistema de um fornecedor, voltava para a planilha. Parecia simples quando ele fazia. Tudo parece simples na mão de quem já repetiu um gesto 187 vezes.

Eu anotava os números com aquela concentração levemente teatral de quem acabou de perceber que, se errar uma caixa, talvez alguém fique sem copo no meio do sábado.

Nas próximas semanas, vou começar a cuidar de estoque e pedidos com fornecedores e escala do time de FOH.

Acho que agora, provavelmente na terça-feira, o GM vai sentar comigo para me mostrar a escala.

A cada semana, um pouco mais do que ele faz para manter a loja de pé vem parar no meu prato.

Não sei se existe um plano. Não sei se alguém imagina me colocar como General Manager em algum momento. Ninguém me prometeu uma cadeira, uma chave, um título novo no crachá.

Mas estou aceitando e aprendendo.

No fim das contas, foi para isso que entrei ali.

eu queria aprender café, claro

O espresso, o leite, a conversa com quem chega calado e sai menos calado.

Mas também queria entender o que existe atrás da cortina. Como uma loja respira antes de abrir. Como ela continua respirando quando faltam duas pessoas na escala, a máquina faz um barulho estranho e alguém acabou de pedir uma alteração no menu.

Há uma versão muito bonita de trabalhar em café.

Ela tem luz de fim de tarde. Tem música boa. Tem um cappuccino com latte art bonito o suficiente para alguém fotografar. Tem alguém dizendo que “o lugar tem uma energia ótima”.

E tem também o depósito.

Tem uma planilha aberta.

Tem 15 fornecedores.

Tem a descoberta de que ainda há 28 unidades de uma coisa que você jurava ter acabado, e só 4 de uma coisa que parecia eterna.

É uma espécie de hospitalidade invisível.

Ninguém entra no BamBam pensando: espero que tenham contado corretamente os lids.

Mas todo mundo percebe quando ninguém contou.

No começo, bateu um frio na barriga danado aprender sobre estoque e pedidos.

Não porque é um bicho de sete cabeças. Depois de algumas horas, ficou claro que era quase o contrário. Era uma criatura muito humana, cansativa e sem glamour.

Você conta a loja inteira. Coloca os números numa planilha. Confere o que precisa ser reposto. Entra no sistema de cada fornecedor. Faz os pedidos. Descobre que esqueceu de contar alguma coisa.

Volta para o depósito.

Conta de novo.

É repetitivo. Manual. Um pouco massante.

E, exatamente por isso, meu cérebro começou a coçar.

Enquanto o GM falava, uma parte de mim olhava para aquelas colunas e pensava:

"Tem alguma coisa aqui."

Alguma ferramenta poderia ajudar.

Alguma coisa poderia ser menos dependente de abrir sete abas, copiar números, procurar e-mails antigos, lembrar qual fornecedor entrega em qual dia.

Talvez uma IA pudesse organizar uma parte desse caos.

Talvez pudesse transformar uma tarefa de 2 horas em uma conversa melhor com a equipe, uma xícara tomada com calma, uma mesa limpa antes de alguém precisar pedir.

Mas aí eu senti vontade de puxar o freio.

Não quero ser o cara que chega numa operação que existe há anos, aprende metade de um processo e começa a apontar para tudo como se tivesse descoberto a roda no estoque.

“Já pensaram em automatizar?”

Essa pergunta pode ser irritante em qualquer idioma.

Antes de mudar qualquer coisa, eu quero aprender a fazer do jeito que é feito hoje.

Quero entender por que o GM abre aquela planilha antes de pedir leite.

Quero saber onde o processo trava.

Quero fazer algumas vezes até minhas mãos saberem o caminho.

Quero errar uma conta pequena e sentir a consequência pequena dela.

Tem uma arrogância muito contemporânea em querer otimizar uma coisa antes de ter vivido essa coisa.

É o tipo de pressa que produz gente capaz de desenhar mapas muito bonitos de cidades onde nunca caminhou.

Então, por enquanto, vou contar as tampas.

mas aquela coceira ficou

Porque a verdade é que eu não sei quase nada de IA.

Uso ChatGPT. Uso Claude. Peço ajuda para coisas simples, escrevo rascunhos, organizo ideias, faço perguntas que eu teria vergonha de fazer para uma pessoa ocupada.

Isso já virou uma espécie de canivete suíço digital.

Mas criar um agente?

Criar uma library?

Lidar com APIs?

Fazer sistemas conversarem entre si sem explodir minha tarde inteira?

Absolutamente nada.

E sei que falar sobre IA pode ser exaustivo. A palavra aparece em toda parte com a energia de um homem de camisa polo tentando vender um curso no aeroporto.

Todo mundo parece ter uma opinião muito urgente. Todo mundo parece ter uma tela cheia de gráficos, uma lista de ferramentas, uma profecia sobre quem vai ficar para trás.

Depois que saí do mercado de tecnologia, eu me permiti ignorar quase tudo isso.

Por quase onze meses, minha atenção foi para outro lugar.

Aprender café.

Aprender hospitalidade.

Aprender a passar 8h em pé.

Aprender a ouvir o barulho da máquina de espresso e perceber quando alguma coisa não está certa.

Aprender que uma pessoa pode pedir um café pequeno e ainda assim estar carregando uma semana enorme.

Eu estava muito feliz vivendo uma rotina cujo centro era físico.

Vapor. Louça. Grãos no moedor. O peso de uma bandeja. A fila se formando. O reflexo da rua na vitrine.

E então, na mesma semana em que comecei a entrar de verdade nos processos de operação da loja, conversei com um cliente no till.

Eu gosto de conversar quando existe abertura.

Às vezes a conversa dura o tempo de passar um cartão. Às vezes alguém volta no dia seguinte e lembra o nome do barista. Às vezes o café vira uma pequena sala de espera para uma conversa que aquela pessoa nem sabia que precisava ter.

O escritório da Microsoft fica ao lado do BamBam. Então aparecem muitos funcionários de lá para tomar café, almoçar ou beber alguma coisa depois do expediente.

Naquele dia, um deles ficou. Ele era engenheiro de segurança na Microsoft.

Começamos falando de trabalho, depois de mercado, depois de tecnologia. Em algum momento, como sempre acontece quando duas pessoas têm algum passado em tech, a conversa chegou à IA.

Ele disse:

“AI is not an if. AI is a reality. People need to learn that. And if you’re not, you’re already behind.”

Eu concordei na hora, claro.

Só que também senti uma vontade meio ridícula de olhar para trás, para o depósito, e pedir desculpas para as tampas.

Porque ali estava eu, no caixa de um café, concordando com um engenheiro da Microsoft sobre a urgência de aprender IA.

E eu não tinha um agente para o meu calendário.

Não tinha um agente para os meus e-mails.

Não tinha um agente para organizar a operação do FOH.

Não tinha um agente para fazer pedido de leite de aveia.

Muito menos um agente para fazer café, graças a Deus.

Até então, eu não via um uso real na minha rotina. Minha vida tinha ficado bastante offline.

E foi um alívio descobrir que eu gostava disso.

Eu gostava de resolver coisas olhando para pessoas. Gostava da realidade pequena e teimosa de uma mesa suja, de uma xícara lascada, de alguém pedindo “o de sempre”.

Mas talvez o offline nunca tenha sido uma porta trancada.

talvez o offline só precise de espaço

No dia do meu embarque de volta para o Canadá, ainda no Brasil, conversei com um amigo que é CEO de uma startup de tecnologia.

Aliás, essa é a explicação para eu ter desaparecido por duas semanas daqui. Eu estava no Brasil. Offline. Em outra frequência. Deixei este e-mail sozinho por um tempo e, honestamente, ele sobreviveu.

Meu amigo é uma dessas pessoas que respiram tecnologia há décadas. Acorda, lê, absorve, conversa, constrói.

E falamos sobre uma coisa que ele vê muito em gente que trabalha com tech, inclusive nele mesmo: uma espécie de exaustão.

Uma vontade de chegar perto de coisas que não precisem de bateria, atualização ou uma tela dizendo que há uma versão melhor disponível.

Muita gente da tecnologia procurando um caminho para fora dela.

E eu, quase 11 meses depois de sair desse mundo, começando a imaginar como algumas ferramentas podem voltar para a minha rotina.

A vida tem um senso de humor que eu respeito, embora às vezes eu preferisse que ela pegasse mais leve.

Eu não quero aprender IA para parecer atualizado.

Não quero usar palavras como “disruptivo” numa reunião sobre guardanapos. Não quero transformar um café em uma máquina de produzir eficiência até ninguém mais ter tempo de olhar nos olhos de ninguém.

Quero aprender porque talvez exista ali uma habilidade que me ajude a cuidar melhor de uma operação.

Talvez uma ferramenta consiga aliviar o peso de certas repetições para que sobre mais atenção para aquilo que realmente pede presença.

A escala de alguém que está tentando conciliar dois empregos. A pessoa nova da equipe que ainda fica perdida atrás do balcão. O cliente que entra todo dia no mesmo horário e, naquele dia, pede chá.

O leite derramado no rush.

O café que extraiu estranho.

Na próxima terça-feira, provavelmente, vou aprender sobre escala.

Vou abrir outra planilha. Vou olhar para aqueles quadradinhos com nomes, horários e ausências, e vou sentir de novo aquele frio na barriga de quem ainda não sabe fazer uma coisa.

Depois, com calma, talvez eu comece a aprender o resto.

Sem pressa de virar especialista. Sem fingir que entendi antes de entender.

Primeiro, o estoque.

Depois, os pedidos.

Depois, a escala.

Depois, quem sabe, alguma janela aberta no computador tentando me ensinar a não passar tanto tempo dentro dele.

Por enquanto, ainda há tampas para contar.

E, no fim do dia, quando a porta fecha e o café fica quieto, sempre sobra um pouco de vapor no vidro.

Esse e-mail termina aqui. O resto, é seu.

@paiva // @jppaiva._ // paiva.me

Vancouver, BC - Canadá
Unsubscribe · Preferences


por Paiva


Read next ...