é isso mesmo que eu quero?
Olhar para a própria vida depois de um dia ruim e ainda querer acordar dentro dela amanhã? É isso mesmo que eu quero?
Outro dia, no meio do turno, eu estava fazendo alguma coisa completamente banal.
Sei lá. Um flat white. Ou talvez um latte. Não sei.
Atrás da maquina de espresso, o vapor subindo, alguém esperando na frente do bar, alguém perguntando alguma coisa atrás de mim.
Nada especial. Aquele tipo de minuto que desaparece assim que acontece. E pensei:
"eu gosto da minha vida."
Foi um pensamento estranho. Porque eu não estava especialmente feliz naquele momento.
Eu estava cansado. Tinha coisa para resolver. Tinha coisa que não estava funcionando como eu queria. Meu corpo já estava pedindo para sentar.
Porque existe uma diferença quase banal entre estar feliz NA sua vida e estar feliz COM a sua vida. Uma é a terça-feira às 14h17. A outra é aquela pergunta silenciosa:
"é isso mesmo que eu quero?"
A primeira muda o tempo todo. A segunda demora. E talvez a confusão esteja justamente aí.
A gente costuma usar o humor de uma terça-feira para avaliar a vida inteira. Muito perigoso.
os dias ruins continuam vindo
O café não ficou magicamente mais romântico depois que eu comecei a trabalhar com ele.
Existe fila.
Existe louça.
Existe estoque.
Existe gente faltando.
Existe pedido errado.
Existe leite que não coopera.
Existe aquela hora do turno em que você olha para o relógio e descobre, com alguma decepção, que só passaram 20min.
E existe a parte maravilhosa.
Uma extração bonita. Uma mesa cheia. Uma pessoa que volta porque gostou do café. Uma equipe que começa a se entender sem precisar falar tanto. Uma coisa que ontem parecia confusa e hoje simplesmente funciona.
É uma vida muito feita de pequenas coisas. E talvez seja justamente aí que a coisa fique interessante.
Clayton Christensen estudava empresas que acabavam destruídas por uma sequência de decisões perfeitamente razoáveis.
Ninguém acordava numa manhã e decidia destruir a própria empresa.
As pessoas escolhiam o projeto que dava retorno mais rápido.
O cliente mais importante.
O produto mais seguro.
O resultado que aparecia no trimestre.
E repetiam.
Até que, muitos anos depois, a soma daquelas pequenas decisões tinha levado a empresa para um lugar que ninguém havia escolhido.
Ele percebeu o mesmo padrão nos colegas de faculdade.
5 anos depois de formados, todo mundo parecia muito bem.
Dez. Quinze. Vinte anos depois, a conversa mudava. Carreiras excelentes. Casamentos acabados. Filhos distantes. Muito dinheiro. Pouca vontade de estar vivendo aquela vida.
Ninguém tinha planejado aquilo. Tinham apenas tomado decisões, uma por uma.
A internet é praticamente uma máquina industrial de evidências de curto prazo.
Mais seguidores.
Mais dinheiro.
Mais alcance.
Mais clientes.
Mais produtividade.
Mais alguma coisa.
Tudo aparece imediatamente.
Você faz alguma coisa e alguém te diz se funcionou.
Você publica e vê o número.
Você trabalha e recebe.
Você compra e chega amanhã.
Você manda uma mensagem e espera os dois risquinhos.
A vida inteira parece estar sendo transformada em feedback. E eu acho que isso bagunça um pouco a nossa ideia de felicidade.
Talvez seja por isso que coisas que demoram sejam tão difíceis de desejar.
Família demora.
Amizade demora.
Reputação demora.
Uma obra demora.
Um restaurante demora.
Um café demora.
Uma vida demora.
enquanto isso, minha vida ainda está meio bagunçada.
Existem momentos em que eu penso:
E outros em que penso:
"isso é exatamente o que eu queria."
Os dois pensamentos podem acontecer no mesmo dia. Às vezes com meia hora de diferença. Talvez até com o mesmo pitcher na mão.
Tim Urban descreve uma sensação parecida.
Ele tinha um trabalho de que gostava. Gostava das pessoas. Tinha os fins de semana livres. Estava feliz na própria vida. Só que, olhando para ela de longe, alguma coisa estava errada.
Ele queria fazer coisas.
Queria criar.
Queria se conectar com pessoas através do que criava.
E então veio o Wait But Why. E aconteceu uma coisa engraçada.
Ele conseguiu a vida que queria. E começou a reclamar dela.
Escrever sozinho era difícil. Não havia colegas. Não havia horário claro. Não havia aquela sensação confortável de “terminei o expediente”.
Ele chamou isso de estar contente no macro e descontente no micro.
Então ele começou a tentar construir terças-feiras melhores.
Achei isso genial. Talvez porque eu esteja começando a entender a diferença.
Tem dias ótimos.
Tem dias medíocres.
Tem dias em que eu chego em casa e não quero conversar com ninguém.
Tem dias em que alguma coisa no trabalho me deixa genuinamente animado.
Tem dias em que eu aprendo alguma coisa pequena e fico pensando nela por horas.
Tem dias em que eu só quero tomar banho.
A cada dia que passa fica mais fácil aceitar cada dia que passa do jeito que passa.
Existe uma certa expectativa moderna de que, quando estamos construindo uma vida que faz sentido, deveríamos sentir alguma confirmação constante.
Uma espécie de trilha sonora. Eu gostaria muito dessa trilha sonora. Mas até agora só tenho o som da máquina de espresso.
coisas que acontecem no intervalo
Talvez a vida real seja mais parecida com trabalhar num café.
Muito tempo fazendo coisas aparentemente pequenas.
Uma coisa.
Depois outra.
Depois outra.
Até que você olha para trás e percebe que alguma coisa foi construída.
Estamos chegando a um daqueles momentos grandes. Aqueles que fazem todo o resto parecer pequeno por alguns minutos.
Em breve, vai existir uma pessoa nova na nossa casa.
Não sei qual será a profissão dele.
Não sei onde vai morar.
Não sei se vai gostar de café.
Não sei se vai achar tudo isso que fazemos aqui importante ou completamente ridículo.
Provavelmente as duas coisas em momentos diferentes.
Mas existe uma coisa que eu gostaria que ele tivesse.
Uma vida que, quando olhada de longe, pareça ter sido escolhida.
Que tenha seus rituais.
Suas pessoas.
Seus lugares.
Suas coisas gastas pelo uso.
As mesmas mesas.
Os mesmos cafés.
As mesmas histórias contadas tantas vezes que já perderam a graça.
Christopher Alexander escreveu que o caráter geral de uma vida é dado, em grande parte, pelas coisas que acontecem repetidamente.
Essa é uma ideia quase ofensivamente simples.
A gente passa tanto tempo esperando os acontecimentos grandes.
O emprego.
A mudança.
O casamento.
O filho.
O negócio.
A casa.
O próximo capítulo.
Enquanto isso, a vida vai acontecendo no intervalo.
No café de terça.
Na louça de quarta.
Na conversa no carro.
Na caminhada até o trabalho.
Na pessoa que você encontra toda manhã.
No mesmo copo.
Na mesma música.
Na mesma janela.
No mesmo abraço.
Talvez uma vida seja mais parecida com um café do que com um filme, no final das contas.
Você entra e, à primeira vista, não aconteceu muita coisa. Mas alguém passou a manhã inteira ali.
Limpou.
Preparou.
Queimou alguma coisa.
Fez de novo.
Arrumou as cadeiras.
Encheu a geladeira.
Moeu café.
Lavou pitchers.
Conversou com alguém.
Riu.
Se irritou.
Foi embora.
Amanhã, tudo começa outra vez. Talvez uma vida seja isso também. Uma coisa sendo feita. Depois outra. Depois outra.
Amanhã tem turno. O pitcher vai estar no mesmo lugar. O café vai começar a cair. Até que, um dia, você olha para trás e percebe que estava vivendo.
Penso mais naquela outra coisa. Olhar para a própria vida depois de um dia ruim e ainda querer acordar dentro dela amanhã?
Sim.
Mesmo que amanhã tenha estoque para contar.
Mesmo que alguma coisa esteja quebrada.
Mesmo que o café saia ruim.
Mesmo que eu esteja cansado.
Mesmo que ainda falte um bocado para a vida que imagino.
Talvez eu esteja começando a gostar do caminho.
Hoje, isso já parece bastante. Amanhã tem turno. O pitcher vai estar no mesmo lugar. O café vai começar a cair.
E, em algum momento, sem ninguém perceber, mais um pequeno pedaço da vida vai ter acontecido.
Esse e-mail termina aqui. O resto, é seu.
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