eu etiqueto minhas coisas
Tem uma etiqueta no meu computador. Ela diz uma data.
Eu poderia tirar. Na verdade, ninguém sabe que ela existe. Ela não serve para absolutamente nada.
E talvez seja justamente por isso que eu gosto tanto dela.
Eu comecei a fazer isso depois de assistir aos vídeos do Van Neistat. Se você conhece o Van, provavelmente sabe do que estou falando.
Se não conhece, talvez seja melhor assim.
Você ainda pode descobrir sozinho o prazer estranho de assistir a um cara tratar uma lata, uma ferramenta, uma etiqueta, uma gaveta ou um pedaço de madeira como se aquilo tivesse uma pequena biografia.
Obrigado, Van.
Minha câmera. Minha máquina de espresso. Meu computador. Objetos que eu uso todos os dias e que, de repente, começaram a parecer um pouco menos anônimos.
Então eu coloquei etiquetas. Uma data aqui. Um nome ali. Alguma informação que ninguém precisava saber.
Mas eu precisava.
Eu gosto da ideia de que uma coisa possa carregar o momento em que ela entrou na minha vida. Talvez seja uma tentativa meio ridícula (ou romântica) de impedir que o tempo transforme tudo em pano de fundo.
Porque é isso que acontece.
A gente compra uma coisa. Fica feliz. Usa. Usa de novo. Usa mais uma vez. E depois de algum tempo ela simplesmente vira parte da casa. Parte da mesa. Parte da rotina.
Até que um dia você percebe que aquela coisa esteve com você durante um pedaço inteiro da sua vida e você nem estava prestando atenção.
A etiqueta é uma pequena maneira de dizer:
prefiro detalhes pequenos
Eu tenho pensado muito sobre atenção ultimamente. Principalmente trabalhando com café.
Tem uma coisa engraçada acontecendo comigo. Eu nunca fui particularmente bom em prestar atenção. Ou talvez eu devesse dizer que nunca fui particularmente bom em prestar atenção quando não me importava.
Minha desculpa favorita pra justificar minhas notas na escola.
Quando eu estudava alguma coisa só porque precisava.
Quando trabalhava em alguma coisa que não despertava nada em mim.
Quando estava preso em um ambiente que não parecia ter nenhuma relação comigo.
Eu conseguia ficar completamente cego.
Uma coisa podia estar torta na minha frente por horas. Eu simplesmente não via. Uma gaveta podia estar aberta. Uma mesa podia estar suja. Uma coisa podia estar no lugar errado.
Nada. Meu cérebro estava em outro lugar.
Era como se eu tivesse passado anos andando por dentro de ambientes com as luzes apagadas.
Mas aí você coloca uma pessoa no lugar certo. Uma máquina que você gosta. Um cheiro de café. Uma música. Uma bancada. Um grupo de pessoas que leva alguma coisa a sério.
E alguma chave vira.
De repente eu vejo.
Eu vejo o copo de água com a marca deixada porque alguém empilhou copos demais.
Vejo a migalha de pão escondida naquele canto impossível debaixo da mesa.
Vejo o respingo de leite que escapou do pitcher quando alguém terminou uma latte art.
Vejo o pó de café que saiu voando do porta-filtro durante o tamping.
Vejo aquela pequena gota de água que ficou depois de alguém enxaguar o pitcher e que, por algum motivo, conseguiu parar justamente na área onde o cliente está esperando o café.
Eu vejo. Eu vejo coisas.
Eu vejo o copo de água abandonado no balcão por alguém que já foi embora.
Eu vejo quando uma caixa de papel toalha está mais cheia que a outra no banheiro.
Eu vejo quando alguém escreveu alguma coisa num squeeze bottle e a letra parece ter sido feita 5min antes de uma prova de caligrafia.
Uma cafeteria não é só café. É o conjunto.
É a bancada seca.
É o copo de água.
É o pano dobrado 3 vezes.
É a garrafa dágua cheia.
É a etiqueta legível.
É o pé da cadeira bamba.
É a torneira forte.
É o som alto do moedor.
É a música que acompanha.
É alguém que limpa uma coisa que ninguém teria reclamado se permanecesse suja.
É o barista que lembra o nome de quem volta.
É o barista que lembra o café mais pedido de quem volta.
São detalhes tão pequenos que, isoladamente, parecem completamente idiotas (ou desnecessários).
Mas coloque cinquenta deles juntos e você criou uma sensação. Você criou um sentimento. Você criou um lugar.
mas pra quê etiquetas que ninguém vê?
Eu não quero transformar minha casa numa oficina do Van Neistat. Embora, sinceramente, eu não reclamaria.
Uma etiqueta é uma forma romântica de dizer pra aquela coisa "oi, eu te vejo". É dizer que aquele objeto não chegou ali por acidente.
Eu escolhi.
Eu uso.
Eu cuido.
Isso fez parte da minha vida.
Tem alguma coisa quase infantil nisso. E talvez seja isso que me faz gostar tanto de etiquetas.
Quando criança, a gente coloca nosso nome em tudo. No caderno. Na mochila. Na garrafa de água. Como se o mundo precisasse saber:
Hoje eu acho que faço o contrário.
Eu etiqueto para lembrar a mim mesmo que eu...sou eu.
Que existe uma pessoa por trás das coisas.
Que existe uma história antes de cada objeto.
Que eu estava aqui quando aquilo aconteceu.
Talvez seja uma forma de construir identidade sem precisar anunciar uma identidade. Sem precisar transformar tudo em estética. Sem precisar postar.
Uma etiqueta que ninguém vê.
Uma data que ninguém pediu.
Uma pequena coisa feita porque você sabe que ela está ali.
Talvez exista alguma dignidade nisso.
Talvez exista algum pingo de felicidade nisso.
Fazer uma coisa direito mesmo quando ninguém vai saber que você fez.
Que detalhe pequeno interessante.
mas felicidade não é um detalhe
Eu acho que estou começando a entender uma coisa sobre mim.
Quando eu realmente gosto de alguma coisa, eu fico quase absurdamente atento. É como se aparecesse um pequeno raio laser dentro da minha cabeça.
Ele passa pela sala. Essa coisa está torta.
Passa pela bancada. Tem uma gota aqui.
Passa pelo bar. Essa etiqueta está ilegível.
Passa pelo banheiro. Alguém esqueceu de repor isso.
Passa pelo máquina de espresso. Tem pó de café aqui.
E continua. Continua. Continua. Até encontrar alguma coisa que ninguém mais parece estar vendo.
Às vezes eu queria conseguir simplesmente sentar e deixar uma coisa estar um pouco errada.
Às vezes eu consigo. Às vezes não. Mas comecei a perceber que essa atenção talvez seja uma das poucas maneiras que encontrei de demonstrar que alguma coisa importa para mim sem precisar dizer que ela importa. Pra ninguém.
Hoje me reencontrei com a minha primeira balança de pesar café. E eu me senti mais feliz.
Não aconteceu nada. Ela só estava ali.
Mas eu lembrei de quando comprei aquela balança.
De quem eu era.
Do que eu estava tentando aprender.
Das coisas que eu achava que seriam importantes.
Das coisas que eu ainda nem sabia que seriam importantes.
Por isso preciso colocar mais etiquetas nas minhas coisas. É a minha pequena forma de me declarar para aquele pequeno objeto.
Tem coisas minhas que já passaram tempo demais sem uma data. E agora isso me incomoda.
Talvez amanhã eu coloque uma etiqueta em alguma delas.
Talvez ninguém perceba.
Talvez eu mesmo esqueça que ela está ali.
Mas um dia, daqui a alguns anos, vou abrir uma gaveta, encontrar aquele objeto e ver uma pequena data colada nele.
E talvez eu pare por alguns segundos.
A etiqueta não muda a coisa. Ela muda a maneira como eu olho para ela.
E, de vez em quando, acho que é só isso que precisamos. Uma pequena marca dizendo:
"Presta atenção. Você estava aqui."
Esse e-mail termina aqui. O resto, é seu.
@paiva // @jppaiva._ // paiva.me