e faço isso com frequência
Tem pessoas que eu não sei mais como cumprimentar.
Não estou falando de inimigos. Inimigos seriam mais fáceis. Um inimigo pelo menos tem a decência de ocupar uma categoria clara na sua cabeça.
Estou falando de pessoas que eu conheço. Ou conheci.
Pessoas com quem eu já ri até perder a hora.
Pessoas para quem eu já mandei mensagem sem pensar duas vezes.
Pessoas com quem eu dividi uma mesa, um turno, uma reclamação sobre trabalho.
E então alguma coisa aconteceu. Uma conversa. Uma frase. Uma situação que ficou meio… nhé. Tipo aquele gosto amargo na boca, sabe?
Às vezes eu consigo apontar o momento exato.
Às vezes não.
Mas, depois disso, eu nunca mais encontro a pessoa de mãos vazias.
Outro dia imaginei que talvez eu carregue uma mala de rodinhas.
Daquelas pretas, pequenas, meio riscadas nas quinas, com uma etiqueta de aeroporto que você esqueceu de tirar.
Dentro dela, eu vou guardando tudo.
A frase.
O tom da frase.
A cara que a pessoa fez depois da frase.
A resposta que eu dei três horas mais tarde no chuveiro.
A resposta que eu deveria ter dado.
Uma interpretação completamente inventada às duas da manhã.
Um silêncio de oito segundos que provavelmente não significava nada.
E é impressionante como essa mala aparece rápido. A pessoa diz:
E, antes que eu responda, já estou puxando a alça.
Talvez seja porque eu trabalho em um coffee shop.
Não existe muito espaço para ter uma crise emocional sofisticada enquanto você está fazendo café.
Tem pedido atrasado. Alguém esqueceu de repor os copos. O leite está a dois segundos de virar lava. Mesa suja com pratos e copos esquecidos. Fila crescendo.
E você continua funcionando.
Claro. Tudo ótimo. Só estou aqui tentando decidir se você perguntou isso porque realmente queria saber ou porque está sendo passivo-agressivo.
“Two oat lattes. Extra hot. Please and thank you.”
Perfeito. Obrigado. Vamos continuar.
quantas versões você tem?
Acho que essa é uma das coisas estranhas de trabalhar em ambientes rápidos.
Não importa muito o que está acontecendo dentro de você.
A máquina continua. Os pedidos continuam. O próximo cliente já está escolhendo entre um cappuccino e um latte como se essa decisão tivesse consequências geopolíticas.
Você aprende a funcionar.
E talvez seja justamente aí que eu fico mais consciente de como mudo perto de algumas pessoas.
Eu fico diferente.
Menos espontâneo.
Mais atento ao volume da minha própria voz.
Mais consciente de onde estou colocando as mãos.
Mais cuidadoso com as palavras.
Como se estivesse tentando atravessar uma sala escura sem encostar em nada.
E talvez seja isso que mais me incomoda.
Eu tenho esse hábito irritante de perceber que alguma coisa mudou na forma como eu existo perto daquela pessoa.
Existe uma versão de mim que conversa sem ensaiar.
Que faz uma piada idiota e esquece dela 5min depois.
Que não precisa analisar um “ok” como se tivesse recebido uma carta criptografada da União Soviética.
Mas algumas relações parecem transformar essa pessoa em alguém mais difícil de encontrar.
distância resolve muita coisa
Eu não sei exatamente o que faço com isso.
Meu primeiro impulso costuma ser bastante eficiente.
Me afastar.
Menos mensagens.
Menos conversas.
Menos oportunidades de puxar aquela mala pela calçada.
Distância realmente resolve muita coisa. Principalmente a necessidade de lidar com elas. E eu já fiz isso algumas vezes na vida.
Com o tempo, algumas pessoas foram ficando menores no retrovisor. Não necessariamente porque eu deixei de gostar delas. Nem porque elas fizeram alguma coisa imperdoável.
Às vezes uma relação só fica estranha. E eu tenho uma dificuldade quase artesanal de descobrir o que fazer com coisas estranhas.
Eu queria que existissem instruções. Talvez um manual preso na parede do quarto:
SE VOCÊ E UMA PESSOA TIVERAM UM PROBLEMA, MAS AINDA PRECISAM EXISTIR NO MESMO LUGAR, FAÇA O SEGUINTE:
- Respire.
- Pare de imaginar o que ela quis dizer.
- Faça seu trabalho.
-
Deixe a estação como você gostaria de encontrá-la.
Seria útil. Mas não existe. Então você improvisa.
existe um padrão
Bastante inconveniente, na verdade.
Existem várias histórias diferentes. Pessoas diferentes. Cidades diferentes. Versões completamente diferentes de mim.
Mas eu apareço em todas elas. Infelizmente. É uma descoberta irritante.
Porque significa que talvez, em algum momento, eu precise olhar menos para as pessoas das quais me afastei e um pouco mais para o que acontece comigo quando alguma coisa entre nós deixa de funcionar.
Não para transformar isso numa sessão de terapia enviada todo domingo por e-mail.
Deus me livre. Foi só porque achei curioso mesmo.
Talvez seja isso que acontece quando você envelhece um pouco.
Você começa a encontrar seus próprios rastros.
Uma escolha aqui.
Um afastamento ali.
Uma mensagem que nunca foi respondida.
Uma pessoa que, por algum motivo, ainda faz você ficar mais rígido só de entrar no mesmo cômodo.
E você percebe que está carregando uma mala. Não porque pretende viajar.
Só porque esqueceu de colocá-la no chão.
Esse e-mail termina aqui. O resto, é seu.
@paiva // @jppaiva._ // paiva.me