todo café vende, ninguém entrega
De cada dez cafeterias em Vancouver, umas 6 ou 7 têm a palavra comunidade escrita em algum lugar.
No site.
No cardápio.
Na parede.
Em letreiro.
Em neon.
O mercado de café especial aqui é pequeno. Perto da Austrália, perto de Hong Kong, a gente é um vilarejo. Mas tem cafeteria a cada esquina.
E quase todas vendem a mesma coisa, além do café: pertencimento.
Eu sei porque eu entrei nesse mercado por causa dessa palavra.
Eu acreditei nela. Ainda acredito, de um jeito torto, que é o jeito que eu acredito nas coisas.
Foi uma parente minha que perguntou, numa ligação sobre a minha vida no Canadá. E eu respondi rápido demais:
O "claro" saiu com gosto meio amargo, meio inseguro. Ficou na boca o resto do dia, como café passado.
Porque sim, eu tenho amigos aqui.
Quatro anos de Vancouver me deram grandes companhias. Laços de parceria, de afeto, de companheirismo, de confiança, de suporte. Gente que eu adoro.
Mas fiquei ruminando esse gosto amargo e cheguei a uma conclusão incômoda: eu passei a vida confundindo três coisas diferentes.
Criar uma comunidade.
Fazer parte de uma.
Se sentir parte de uma.
Três coisas bem diferentes. A gente fala como se fossem uma só.
o fácil e o difícil
Criar uma comunidade não é fácil.
Fácil é criar evento social. Fácil é chamar gente para jantar.
Gente para correr junto.
Gente para pintar junto.
Gente para fazer cerâmica junto.
Gente para ler livro junto.
Fácil é lotar uma sala. Qualquer pessoa com um Instagram e uma lista de transmissão lota uma sala numa sexta à noite.
Difícil é outra coisa.
Como se cria um encontro onde as pessoas se apoiam umas nas outras?
Como se cria um encontro onde as pessoas confiam umas nas outras?
Como se cria um encontro onde as pessoas se sentem pertencentes a um ciclo?
Como se cria um encontro onde as pessoas sentem afeto umas pelas outras?
Difícil. Muito difícil.
E eu acho que é disso que muito imigrante sente falta, sem saber dar nome.
A gente mascara a ausência se juntando a círculos sociais ao redor de alguma coisa: a corrida, a cerâmica, a cerveja, o café, a própria imigração.
O círculo distrai. Por um tempo, parece comunidade. Até que um dia alguém pergunta "você tem amigos lá?" e o "claro" sai amargo.
Nós, os que viemos de fora, somos bons nisso. Em montar a cena. Em estar presente. Em sorrir na foto do grupo. A presença, a gente aprendeu. O resto, estamos aprendendo ainda.
o grupo das 3am
Aí meu filho nasceu. E eu vi, da primeira fila, do que comunidade de verdade é feita.
Aqui no Canadá é super comum o acompanhamento com midwife, a parteira.
Antes e depois do parto, ela junta um grupo de pais e mães de filhos que nasceram na mesma época.
A gente faz parte de um desses grupos.
E é impressionante o que vi acontecer ali dentro em uma semana quando a maioria dos pais estavam com recém-nascido em casa.
Pessoas que mal se conhecem confessam histórias pessoais com seus recém-nascidos. Pedem ajuda sem cerimônia. Compartilham os desafios mais crus, sem filtro.
Mensagens de três da manhã. Gente que não dormiu. Gente com medo. Gente pedindo socorro para uma coisa que não sabe nem nomear.
Cara, ver tudo isso da primeira fila... o que essas mulheres são capazes... é de uma beleza tão grande, tão inspiradora, que me faltam palavras.
Passar pela gestação, pelo parto, pelo puerpério ao lado da minha esposa foi uma das coisas mais inspiradoras da minha vida. Ver o que o ser humano é capaz. O que a natureza é capaz. Me deixou sem vocabulário.
Só com os olhos cheios e as mãos meio sem lugar.
E foi ali, com o telefone aceso às 3am na mesa de cabeceira, que eu entendi o que faltava na palavra do letreiro de cafeteria.
Para fazer parte de uma comunidade, você precisa de dor parecida. De abertura parecida. De se sentir abraçado da mesma forma. De estar movido por algo maior, da mesma forma.
Ninguém ali está performando pertencimento.
Ninguém está posando.
Todos estão, simplesmente, precisando um do outro. A necessidade veio antes do círculo. Não depois. Essa é a ordem certa das coisas, e quase ninguém fala sobre ela.
o que os cafés vendem
O fato é que os cafés prometeram comunidade e entregaram escritório: fila de laptops, fone de ouvido, o cliente frequente reduzido a "o cara do flat white com leite de aveia".
Mas acredito que o problema nunca foi o laptop em si.
O problema é que a grande maioria esmagadora das cafeterias virou um espaço de transações onde, no máximo, acontecem...
transações. E não uma comunidade dentro da qual acontecem transações.
A ordem das coisas importa.
No grupo da midwife, a comunidade veio primeiro: a dor, o medo, a alegria, tudo compartilhado. As trocas, os favores, inclusive os cafés depois, tudo nasceu disso.
Nas cafeterias, a gente tenta fazer o caminho inverso:
abre a porta,
escreve a palavra na parede,
organiza o evento,
e espera que a comunidade apareça.
Como se pertencimento fosse consequência de presença. Mas presença é só o começo. E às vezes nem isso.
a pergunta que eu não sei responder
E aí está o desafio, o que eu não sei resolver, e talvez seja bom admitir isso num texto que vai para tantas mil pessoas:
como se constrói um lugar onde as pessoas se apoiem de verdade? Onde confiem? Onde sintam afeto?
Eu passo o dia atrás de um balcão tentando.
Alguns dias, quando lembro o nome de alguém sem olhar o copo, quando um cliente frequente, como o Tim (gente boníssima e que também virou cliente frequente no BamBam) me conta uma coisa que ele não contou para mais ninguém naquela semana, eu sinto que estou perto.
Na maioria dos dias, eu só estou servindo café bom para gente apressada, com a palavra comunidade brilhando atrás de mim.
E tudo bem. O café precisa ser bom também.
Luz de fim de tarde atravessa a vitrine.
O vapor sobe da xícara.
O celular vibra no bolso do avental: é o grupo das mães e pais recentes. Alguém não dormiu a noite toda e está pedindo ajuda às 6am.
Eu olho para a mensagem. Olho para o letreiro de comunidade. E entendo, de uma vez, a distância entre as duas coisas.
E a ponte, se ela existe, passa por algum lugar entre elas.
Esse e-mail termina aqui. O resto, é seu.
@paiva // @jppaiva._ // paiva.me