talvez a IA precise de uma secretária
Esses dias, vi uma vaga de emprego que me fez rir sozinho.
A Anthropic, uma das empresas que estão construindo inteligência artificial para automatizar boa parte do trabalho humano, estava contratando uma Executive Assistant.
Uma assistente executiva.
A empresa que está desenvolvendo uma tecnologia capaz de organizar agendas, responder e-mails, resumir reuniões, preparar documentos e coordenar viagens precisava de alguém para fazer justamente essas coisas.
Fiquei olhando para a tela por alguns segundos. A ironia era boa demais.
Mas, pensando bem, talvez aquela vaga dissesse alguma coisa que a gente ainda não tenha conseguido entender direito sobre o futuro do trabalho.
Tenho uma relação estranha com a ideia de automação.
Passei quase 15 anos trabalhando em tecnologia. Vi empresas inteiras serem construídas em torno da promessa de tornar processos mais eficientes.
Menos cliques. Menos etapas. Menos gente fazendo trabalho repetitivo.
E, honestamente, muita coisa melhorou.
Ninguém sente saudade de preencher uma planilha manualmente quando um sistema pode fazer isso em segundos.
O problema começa quando a gente olha para uma profissão inteira e decide que ela é composta apenas pelas tarefas que conseguimos colocar numa lista.
Pense numa assistente executiva.
A descrição do trabalho pode incluir organizar reuniões, reservar voos, preparar apresentações, acompanhar decisões e responder mensagens.
Tudo muito objetivo.
Mas imagine que você seja responsável pela agenda de uma pessoa que lidera uma empresa.
Você sabe que ela tem uma reunião importante às 15h. Sabe também que a reunião anterior costuma atrasar, que ela não almoçou direito e que existe uma conversa delicada com um funcionário acontecendo naquela mesma semana.
Você pode organizar tudo perfeitamente. E ainda assim tomar uma decisão péssima.
Talvez a reunião das três precise ser adiada.
Talvez aquele funcionário precise de uma conversa antes de qualquer outra coisa.
Talvez a pessoa que você está tentando encaixar na agenda seja justamente alguém que não deveria ser interrompido naquele momento.
O trabalho começa a ficar interessante aí. Naquilo que não aparece no calendário.
o que está em volta?
Quando comecei a trabalhar em cafeterias, percebi uma coisa curiosa.
Existe uma diferença enorme entre preparar um café corretamente e entender o que está acontecendo ao redor dele.
Você pode aprender a receita de um flat white. A quantidade de espresso. A textura do leite. A temperatura.
Pode repetir o processo 100x.
Mas existe um momento em que alguém chega ao balcão, olha para você e diz:
“Hoje eu vou precisar de um café grande.”
E você percebe que aquela pessoa não está falando sobre café.
Talvez ela esteja atrasada.
Talvez tenha acabado de receber uma notícia ruim.
Talvez esteja tentando sobreviver uma manhã particularmente difícil.
Você não precisa perguntar.
Às vezes, basta preparar o café, colocar a tampa no copo e deixar a conversa acontecer no ritmo que ela conseguir.
Esse tipo de percepção não aparece no manual de treinamento. E, curiosamente, é uma das coisas que mais fazem alguém querer voltar.
mais fácil “executar”?
A inteligência artificial está tornando cada vez mais fácil executar tarefas.
Isso é impressionante.
Mas também está criando uma situação um pouco desconfortável para quem passou a vida inteira tentando ser bom em alguma coisa.
Se uma máquina consegue fazer em segundos aquilo que você levou anos para aprender, o que acontece com o valor do seu trabalho?
Escrever um roteiro.
Editar um vídeo.
Organizar uma pesquisa.
Encontrar uma referência.
Resumir um livro.
Tudo isso está ficando mais rápido. E eu seria um completo hipócrita se fingisse que não quero usar essas ferramentas.
Quero. Uso. Gosto de experimentar.
Mas se eu consigo produzir dez vezes mais, o que exatamente estou tentando produzir?
Dez newsletters? Dez versões de uma ideia que talvez nem precisasse existir?
Às vezes, tenho a impressão de que estamos construindo máquinas capazes de nos ajudar a fazer mais coisas e, ao mesmo tempo, ficando cada vez menos capazes de decidir quais coisas merecem ser feitas.
É uma espécie de esteira rolante.
A velocidade aumenta.
A gente continua correndo.
E ninguém se lembra muito bem de onde queria chegar.
voltando à vaga da Anthropic
O que me chamou a atenção foi o argumento de que uma excelente assistente executiva não é valiosa apenas por manter uma agenda organizada.
Ela precisa entender por que uma reunião importa.
Reconhecer o que está faltando numa decisão.
Antecipar um problema antes que ele chegue à mesa de alguém.
Saber quando agir, quando questionar e quando uma situação exige julgamento humano.
Fiquei pensando em quantas profissões são, na verdade, isso.
Um bom editor não está apenas corrigindo frases. Está percebendo quando uma história perdeu o sentido.
Um bom gerente não está apenas organizando uma escala. Está percebendo que um funcionário está sobrecarregado, que a equipe está perdendo o ritmo ou que alguma coisa está prestes a dar errado.
Um bom cozinheiro não está apenas seguindo uma receita. Está provando o molho e entendendo que falta alguma coisa.
Talvez seja por isso que eu goste tanto de trabalhar com as mãos.
Ajustar o moedor até o espresso encaixar.
Passar um pano no balcão depois de um turno movimentado.
Revisar um texto pela quinta vez porque uma frase continua soando errada.
Existe uma satisfação estranha em fazer alguma coisa que exige um pouco mais do que simplesmente seguir instruções.
minha pequena suspeita sobre o futuro
Talvez as pessoas que vão se sair melhor com inteligência artificial sejam aquelas que desenvolveram um repertório muito maior do que a própria capacidade de executar tarefas.
Gente que conhece o suficiente de uma área para perceber quando uma resposta está errada.
Que entende de pessoas.
Que consegue fazer perguntas melhores.
Que tem alguma experiência real para comparar com aquilo que aparece na tela.
Porque uma ferramenta pode ajudar você a construir um sistema. Mas alguém ainda precisa entender o que aquele sistema está tentando resolver. E alguém precisa perceber quando ele está resolvendo o problema errado.
Isso me parece particularmente importante para quem trabalha com criação.
Se você nunca desenvolveu um olhar, uma máquina pode produzir imagens infinitas sem que você saiba muito bem o que está procurando.
Se você nunca aprendeu a ouvir, pode gerar conversas inteiras sem entender o que alguém está tentando dizer.
Se você nunca fez alguma coisa com as próprias mãos, talvez seja difícil reconhecer a diferença entre um trabalho que parece pronto e um trabalho que realmente está pronto.
Não sei.
Talvez eu esteja romantizando um pouco as coisas.
Também tenho meus dias em que gostaria que uma máquina organizasse a minha vida inteira enquanto eu fico sentado tomando café. Mas existe uma parte do trabalho que eu ainda quero preservar.
a parte em que você precisa estar ali
Semana passada, no meio de um turno, fiquei observando um barista preparar um flat white.
Ele estava fazendo alguma coisa simples. Nada particularmente difícil.
O leite subiu um pouco demais. Ele bateu a jarra na bancada. Girou o leite, olhou para a textura e decidiu começar de novo.
Ninguém pediu.
O cliente provavelmente teria tomado o café sem reclamar. Mas ele começou de novo.
Talvez, no futuro, a inteligência artificial consiga executar quase tudo aquilo que hoje chamamos de trabalho.
Talvez consiga até tomar decisões melhores do que as nossas em muitas situações. Eu não tenho nenhuma vontade de apostar contra isso.
Só espero que, no meio de tanta eficiência, ainda exista espaço para alguém que queira fazer um café um pouco melhor do que o necessário.
Alguém que saiba quando uma reunião pode esperar.
Alguém que entenda que uma pessoa está precisando de ajuda antes mesmo de conseguir pedir.
E, de vez em quando, alguém que olhe para uma máquina extraordinariamente inteligente e diga:
“Calma. Vamos pensar um pouco.”
Esse e-mail termina aqui. O resto, é seu.
@paiva // @jppaiva._ // paiva.me