o atalho mais longo
Doze caixas de leite de aveia. Eu tinha pedido uma.
Estava fazendo o pedido semanal de estoque do BamBam quando errei a quantidade. A ideia era pedir uma caixa com doze unidades. Acabei pedindo doze caixas.
O fornecedor entregou tudo de uma vez. Cento e quarenta e quatro litros de leite de aveia, empilhados na porta do walk-in fridge de um café que já tinha outras coisas para guardar.
Fiquei olhando para aquilo, tentando calcular o tamanho da besteira que tinha feito.
E, antes mesmo de pensar em como resolver o problema, minha cabeça começou a procurar uma saída.
Será que dava para devolver? Será que alguém ia perceber se eu simplesmente empurrasse aquelas caixas para um canto? Será que dava para contar a história de um jeito em que o erro parecesse ter sido de outra pessoa?
Em minha defesa, eu não cheguei a fazer nada disso. Mas minha cabeça já tinha produzido umas três versões dos acontecimentos, duas desculpas razoáveis e um plano de fuga que provavelmente exigiria trocar de identidade.
Abri o celular e mandei uma mensagem para o Tim, o General Manager.
"Hey, Tim. Heads up and this one’s on me: I screwed up the oat milk order. Meant to order 1 case of 12, ordered 12 cases instead. You’ll find them in the walk-in" (tradução)
Depois mandei um e-mail para o fornecedor e tentei ligar para ver se conseguia devolver as caixas extras.
É final de semana de feriado. Todo mundo já está na estrada para suas mini-férias.
Ao menos, o Tim respondeu que provavelmente estava tudo bem. O leite não precisava ficar refrigerado antes de aberto. Se fosse necessário, poderíamos guardar as caixas no depósito.
E foi isso.
Nenhuma reunião de emergência.
Nenhuma planilha com meu nome em vermelho.
Nenhum executivo entrando pela porta do depósito para anunciar que o futuro da empresa estava em risco.
Só cento e quarenta e quatro litros de leite de aveia e um pouco menos de espaço para guardar as coisas.
Fiquei pensando em quanto tempo minha cabeça tinha passado tentando antecipar uma catástrofe que talvez nunca tivesse existido.
O medo tinha sido muito maior que o problema.
E, curiosamente, isso me pareceu familiar.
porque evitamos o desconforto?
Tenho uma teoria sobre as pequenas coisas que a gente faz para evitar o desconforto.
Elas costumam parecer bastante razoáveis quando vistas de perto.
Você está cansado, a fila do café chega à porta e o espresso saiu um pouco diferente do que deveria.
Talvez ninguém perceba, mas você serve mesmo assim.
O fechamento está atrasado.
Você já conferiu a máquina, limpou o balcão, guardou o estoque. Falta uma última coisa no checklist. Você tem quase certeza de que fez aquilo.
Marca como concluído e vai embora mesmo assim.
Uma mensagem está esperando há três dias.
Você sabe que precisa responder, mas quer encontrar as palavras certas. Deixa para amanhã.
Nada disso parece especialmente grave. A vida continua.
O turno termina. A pessoa do outro lado da conversa provavelmente nem está pensando no assunto.
Só que existe uma quantidade surpreendente de energia escondida nessas pequenas fugas.
Você precisa lembrar o que deixou de fazer.
Precisa torcer para que ninguém descubra.
Precisa inventar uma justificativa caso alguém pergunte.
Às vezes, precisa continuar evitando a pessoa com quem deveria ter conversado.
E, no fim, gastou mais tempo fugindo do problema do que teria gastado resolvendo tudo.
É uma péssima maneira de economizar tempo.
Conheço bem o mecanismo. Tenho aplicado a mesma lógica em coisas muito maiores do que um pedido de estoque.
depois que fizer isso, vou ser feliz
Durante muito tempo, achei que a vida ficaria mais interessante quando eu conseguisse organizar tudo.
Quando tivesse dinheiro suficiente para não me preocupar tanto com dinheiro.
Quando encontrasse um trabalho de que gostasse.
Quando tivesse mais tempo para criar.
Quando terminasse aquele projeto, resolvesse aquela pendência, aprendesse mais uma coisa.
Eu gosto de fazer planos.
Gosto de cadernos, listas, ferramentas bem escolhidas e daquela satisfação quase infantil de terminar alguma coisa e riscar o item correspondente.
O problema começa quando essa satisfação vira uma espécie de autorização para viver.
Primeiro, preciso resolver isso. Depois, aquilo. Quando tudo estiver em ordem, vou conseguir aproveitar.
Só que a lista nunca termina.
Você resolve uma coisa e aparece outra.
Consegue o emprego e começa a pensar no próximo passo.
Compra o equipamento e descobre que precisa de outro.
Termina um projeto e, antes mesmo de sentir alguma coisa, já está pensando no seguinte.
O futuro fica cheio de promessas. O presente, cheio de tarefas.
E lá vamos nós, trabalhando para construir uma vida que esperamos aproveitar quando finalmente tivermos tempo para ela.
Às vezes me pergunto quantas coisas já deixei de experimentar porque estava ocupado demais me preparando para experimentá-las direito.
Quantas conversas poderiam ter acontecido antes.
Quantos projetos poderiam ter começado feios, incompletos, meio ridículos.
Quantas tardes poderiam ter sido apenas tardes, sem que eu precisasse transformá-las em alguma coisa útil.
Não tenho uma resposta muito bonita para isso.
Provavelmente, em algumas dessas tardes, eu estava sentado no sofá vendo vídeos de pessoas organizando suas oficinas enquanto ignorava a bagunça da minha própria casa.
a ironia não me escapa
Talvez seja por isso que tenho pensado tanto no desconforto.
Existe uma parte da vida que só conhecemos quando aceitamos passar por ela.
Aprender uma habilidade significa ser ruim em alguma coisa por tempo suficiente para começar a melhorar.
Criar significa conviver com a possibilidade de fazer algo de que ninguém goste.
Construir uma relação significa ter conversas para as quais não existe um roteiro particularmente elegante.
Até as coisas boas trazem algum trabalho consigo.
Você pode passar anos querendo abrir um café.
Pode imaginar a luz entrando pela janela, o cheiro do café moído, as pessoas conversando no balcão. Pode montar uma pasta no Pinterest com referências de madeira, luminárias e cadeiras usadas.
Em algum momento, porém, vai precisar descobrir por que o aluguel está tão caro, por que a máquina parou de funcionar e como explicar para alguém que a escala da próxima semana mudou.
A vida real tem um talento especial para aparecer no meio das nossas ideias bonitas.
E eu gosto disso, embora às vezes preferisse que ela colaborasse um pouco mais com a direção de arte.
O que me interessa é que, quando a gente continua, alguma coisa acontece.
Você aprende a reconhecer os próprios erros.
Descobre o que fazer quando um plano falha.
Fica menos assustado com a possibilidade de não saber a resposta.
Não de uma vez. Aos poucos.
Como um barista que prepara centenas de cafés até começar a perceber diferenças que antes nem sabia que existiam.
Como alguém que aprende a cozinhar, a escrever, a cuidar de outra pessoa.
Como qualquer pessoa que continua fazendo alguma coisa depois que a novidade passa e sobra o trabalho de verdade.
Aos poucos, o difícil deixa de ocupar todo o espaço da sala.
Você ganha prática. Ganha repertório. Aprende que pode cometer um erro pela manhã e ainda ter um dia inteiro pela frente.
Talvez exista uma felicidade muito particular nisso. A de perceber que você consegue lidar com a própria vida um pouco melhor do que conseguia antes.
Não acho que toda dificuldade esconda alguma recompensa. Há problemas que só precisam acabar, e há sofrimentos que não ensinam absolutamente nada.
Não precisamos transformar cada coisa ruim numa história inspiradora para justificar o tempo que passamos sofrendo.
Repita comigo e leia em voz alta:
"Não precisamos transformar cada coisa ruim numa história inspiradora para justificar o tempo que passamos sofrendo."
Mas existe uma diferença entre uma dificuldade que caiu no nosso colo e aquela que acompanha algo que escolhemos fazer porque importa para nós.
essa segunda merece um pouco de espaço.
A felicidade de superar um desafio. De atravessar uma ferida. De sobreviver a uma perda e sair diferente do outro lado. Nenhum atalho entrega isso. O atalho entrega o resultado sem a travessia. E sem a travessia o resultado é oco.
visualize comigo
Quando imagino uma cafeteria, quase sempre começo pelo resultado.
Uma manhã fria em Vancouver. A chuva batendo na janela. é outono. Folhas do vermelhor ao marrom ao laranja, todas espalhadas pelas ruas molhadas e melancólicas.
O barulho do moinho. Uma pessoa entrando, sacudindo a água do casaco e cumprimentando alguém atrás do balcão.
Uma mesa de madeira marcada pelo uso. Livros empilhados num canto. Uma xícara que alguém esqueceu perto da janela.
É uma cena que consigo imaginar com bastante facilidade.
O que tenho mais dificuldade de imaginar é tudo o que vai acontecer antes de ela existir.
As decisões financeiras. Os fornecedores. As contratações. Os dias em que a loja estiver vazia. As vezes em que vou precisar admitir que fiz uma escolha ruim e encontrar uma maneira de consertá-la.
Também haverá coisas que ninguém vai notar.
Uma prateleira instalada na altura certa. Uma receita ajustada depois de várias tentativas. Uma pessoa que recebe ajuda antes de precisar pedir. Um equipamento limpo por alguém que já está cansado e só quer ir para casa.
Essas coisas não costumam aparecer nas fotografias de cafés. Mas imagino que sejam elas que vão determinar como será estar ali.
O lugar que imagino não vai aparecer pronto numa manhã qualquer. Vou precisar aprender a construí-lo enquanto estiver construindo.
Vou errar, corrigir, descobrir coisas que não sabia que precisava descobrir. E, se tudo der certo, um dia alguém vai entrar pela porta, pedir um café e ficar mais 20min porque está gostando de estar ali.
Provavelmente não vai saber nada sobre as planilhas, os erros, os equipamentos que deram problema ou as vezes em que pensei que não estava preparado.
Vai apenas estar ali.
Acho que gostaria de chegar a esse dia sabendo um pouco mais sobre tudo o que foi necessário para que ele acontecesse.
de volta às caixas de leite de aveia
Elas continuam no depósito.
Aos poucos, vão desaparecendo. Uma caixa vai para o bar, outra vai para o estoque da frente. Alguém prepara um latte, alguém prepara um flat white, e a pilha vai diminuindo.
Toda vez que passar por ali, vou lembrar da mensagem que mandei ao Tim.
Gosto dessa frase. É curta, direta e não exige uma história muito elaborada para sustentá-la.
Fiz o pedido. Errei a quantidade. Vou tentar resolver.
Queria conseguir tratar mais coisas assim.
Se um dia eu abrir meu café, ele não vai ser o café do atalho.
Vai ser o do caminho longo.
Do nome lembrado.
Do pedido lembrado.
Sem roteiro, sem pressa de virar a mesa.
Conversas genuinas. Sem ser performático. Sem querer estar ali pra ser visto. Querer estar ali por querer estar ali.
O tempo é o ponto.
Cortar caminho num café é fácil. Eu sei, eu faço o inventário dos meus atalhos todo dia.
Mas no fim do mês você tem um café que funciona e ninguém ama. E eu não quero construir isso. Quero construir o lugar que só existe porque alguém escolheu o caminho desconfortável.
Todo dia. Quando ninguém tava olhando.
Então, amanhã tem mais um turno no BamBam.
O depósito vai continuar cheio de coisas, o grinder vai precisar ser limpo e alguém provavelmente vai esquecer alguma coisa no fechamento.
E, em algum momento, mais uma caixa de leite de aveia vai sair daquela pilha.
Por enquanto, isso me basta.
Esse e-mail termina aqui. O resto, é seu.
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