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por Paiva

Oct 26 • 7 min read

porque melhorar dói?


o desconforto de se tornar alguém

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Outro dia, errei um pedido no café. Nada particularmente dramático.
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Acontece algumas vezes por turno.
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Você se confunde com o leite, coloca gelo demais, esquece de perguntar o tamanho. O cliente olha para o copo, você olha para o copo, e os dois entendem que alguma coisa deu errado.

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Você refaz a bebida.

Pede desculpas.

Segue o trabalho.

O problema é que, às vezes, um erro pequeno consegue abrir uma janela para uma insegurança muito maior.

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Você começa a se perguntar se está aprendendo rápido o suficiente. Se deveria saber mais a essa altura. Se as outras pessoas também percebem que você ainda está tentando descobrir algumas coisas que parecem naturais para elas.

E aí vem aquela vontade de fazer alguma coisa em que você já seja bom.

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Qualquer coisa.

É curioso como, depois de tantos anos tentando construir uma vida, a gente ainda sente uma necessidade infantil de ser o melhor aluno da sala.

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Talvez porque ser iniciante seja uma experiência particularmente desagradável para quem passou muito tempo construindo a própria identidade em torno da competência.

Você sabe resolver problemas. Sabe organizar equipes, tomar decisões, escrever, criar. Durante anos, essas habilidades ajudaram a pagar as contas e deram alguma forma à sua identidade.

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Então você muda de ambiente, começa a aprender uma profissão nova e, de repente, está perguntando onde guardam os panos de limpeza.

O ego não recebe muito bem essas notícias.

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existe uma ideia que me interessa

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bastante.
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A de que algumas emoções desagradáveis podem ser sinais de progresso.

O medo de mostrar um trabalho ainda imperfeito. A frustração de perceber que você não é tão bom quanto gostaria. A ansiedade que aparece antes de uma conversa difícil. A sensação de estar atrasado enquanto todo mundo parece saber exatamente o que está fazendo.

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Às vezes, esses sentimentos indicam que você está se aproximando de alguma coisa importante.

Pense em aprender a tocar violāo.
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No começo, seus dedos parecem pertencer a outra pessoa. Você erra acordes, perde o ritmo, interrompe uma música a cada dez segundos. Depois de algumas semanas, começa a reconhecer os movimentos. Depois de alguns meses, consegue tocar alguma coisa sem olhar para as mãos o tempo inteiro.

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O que mudou?

Você passou um bom tempo sendo ruim naquilo.

E continuou.

Existe uma diferença entre o sofrimento que acompanha o aprendizado e aquele que apenas nos machuca. Nem toda ansiedade é um sinal de crescimento. Nem toda dificuldade merece ser suportada. Às vezes, estamos insistindo numa situação que nos faz mal, e o melhor seria sair dela.

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Mas existe um tipo particular de desconforto que aparece quando estamos desenvolvendo uma capacidade que ainda não temos.

Esse desconforto tem uma característica irritante: ele costuma chegar antes de qualquer evidência de que estamos melhorando.

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Primeiro vem a dúvida. Depois, talvez, a habilidade.

E, durante um bom tempo, as duas coisas precisam dividir o mesmo espaço.
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tenho pensado nisso também

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Muito por causa da paternidade, não vou negar.

O Valentin nasceu há pouco mais de um mês, e existe algo engraçado em perceber quantas coisas fundamentais da vida não vêm acompanhadas de qualquer sensação de competência.

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Você segura um recém-nascido e, de repente, seus braços parecem ferramentas que você recebeu sem manual de instruções.

Você aprende a trocar fraldas, reconhecer choros, preparar mamadeiras quando necessário, ajustar horários de sono e tentar descobrir se aquele barulho significa fome, desconforto ou simplesmente que um bebê tem opiniões muito fortes sobre a existência.

Você aprende fazendo. E faz enquanto está cansado. Muito cansado.
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Há noites em que o relógio parece andar de propósito mais devagar.
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Você olha para o celular, vê que são 3am e sente uma pequena tristeza por todas as versões da sua vida que, naquele momento, estão dormindo tranquilamente.
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A vida em que você poderia estar vendo um filme.

A vida em que teria dormido oito horas.

A vida em que poderia terminar um projeto sem precisar interrompê-lo para descobrir porque uma pessoa de 4kg está chorando.

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Essas versões parecem bastante atraentes às 3am.

Mas então você pega o bebê no colo. Sente o calor da cabeça encostada no seu peito. Percebe que ele está ficando quieto. Caminha devagar pela sala, com as luzes apagadas e os pés frios no chão.

E, por alguns minutos, tudo parece estranhamente simples.

Você continua cansado. Continua sem saber exatamente o que está fazendo. Só que agora existe alguém dormindo nos seus braços, e você entende que uma parte importante da sua vida consiste em aprender a cuidar de alguém antes de se sentir completamente preparado para isso.

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Não existe certificado de competência para essa parte. Você simplesmente aparece no dia seguinte.

E no outro.

a relação entre experiência e o futuro

Queremos ser bons pais, bons profissionais, bons amigos, bons companheiros.
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Queremos criar alguma coisa que tenha valor, construir uma vida de que gostemos e desenvolver habilidades que nos permitam fazer um trabalho de que tenhamos orgulho.

Mas também queremos evitar a parte desagradável de tudo isso. Não nego.

Queremos escrever sem enfrentar a página em branco. Criar sem mostrar os primeiros rascunhos. Aprender sem errar na frente dos outros. Ter conversas difíceis sem sentir o coração acelerar. Construir relações profundas sem precisar lidar com as necessidades, as diferenças e os dias ruins de outra pessoa.

Queremos o resultado com o mínimo possível de atrito.
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E, sinceramente, eu entendo.

O mundo inteiro parece empenhado em realizar esse desejo.
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Existe uma ferramenta para escrever por você, outra para organizar seu trabalho, outra para resumir o livro que você não teve tempo de ler.
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Agora você pode assistir a vídeos sobre praticamente qualquer habilidade sem precisar experimentar a humilhação de tentar desenvolvê-la em público.

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Até o entretenimento está sendo otimizado para que você nunca precise ficar entediado por tempo suficiente para perceber que está entediado.

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É uma conveniência maravilhosa.

Também me pergunto o que acontece quando começamos a confundir uma vida boa com uma vida em que raramente nos sentimos desconfortáveis.

Porque algumas das coisas que mais queremos exigem justamente que aceitemos passar por períodos em que não gostamos muito de quem somos.

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O escritor que ainda não sabe escrever o livro que imaginou. O cozinheiro que precisa preparar 100 refeições antes de dominar uma receita. O músico que toca a mesma passagem 50x. O pai que tenta entender o próprio filho enquanto aprende a entender a si mesmo.

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Em todos esses casos, existe uma distância entre a pessoa que somos e aquela que precisamos nos tornar.

E morar nessa distância pode ser bastante desagradável.

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preparando homens para os outros

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​Scott Galloway escreveu sobre uma responsabilidade que considero especialmente bonita:

Preparar os filhos para serem pessoas que contribuam para a vida de outros, inclusive de pessoas que talvez nunca venham a conhecer.

A ideia me faz pensar no tipo de trabalho cujo resultado não pertence inteiramente a quem o realiza.

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Você ensina uma criança a ter consideração pelos outros sem saber como ela vai usar isso daqui a 20 anos.

Ajuda alguém a aprender uma profissão e talvez nunca descubra o que aquela pessoa fará com o conhecimento adquirido.
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Cria alguma coisa que pode continuar existindo depois que você perder o interesse, mudar de direção ou simplesmente deixar de estar por perto.

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Existe um tipo de generosidade escondida nisso.

Você dedica tempo a alguma coisa cujo retorno não consegue calcular. E, muitas vezes, o trabalho parece pequeno demais para justificar o esforço.

Lavar a mesma louça pela terceira vez. Revisar um texto que ainda não funciona. Ouvir uma pessoa que está passando pelo mesmo problema pela quarta semana consecutiva. Levantar da cama quando o bebê acorda, mesmo quando você acabou de conseguir dormir.

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Nenhuma dessas coisas parece particularmente grandiosa enquanto está acontecendo.

São apenas pequenas tarefas que precisam ser feitas por alguém.

Talvez seja por isso que elas sejam tão fáceis de subestimar. A parte mais importante do trabalho raramente vem acompanhada de uma trilha sonora.

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e se eliminássemos as dificuldades?

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Outro dia, pensei em como seria estranho se pudéssemos eliminar todas as dificuldades que encontramos pelo caminho.

Imagine aprender qualquer habilidade instantaneamente.
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Nunca sentir insegurança.

Nunca precisar pedir ajuda.

Nunca experimentar a frustração de perceber que alguém é melhor do que você em alguma coisa que gostaria de dominar.

Seria confortável. Também seria difícil imaginar o que sobraria para fazer.

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Talvez eu esteja romantizando um pouco o esforço. Afinal, existe sofrimento demais no mundo para precisarmos inventar mais. Se uma tarefa pode ser feita de maneira mais simples, ótimo. Se alguém pode nos ajudar, melhor ainda. Não vejo virtude especial em complicar a vida.

Só acho que vale prestar atenção naquilo que estamos tentando evitar.

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Às vezes, é uma tarefa desnecessariamente difícil.
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Outras vezes, é a sensação de sermos iniciantes. A possibilidade de falhar. O trabalho repetitivo de cuidar de alguma coisa. A responsabilidade de continuar aparecendo quando ninguém está olhando e não existe recompensa imediata.

E essas coisas podem nos dizer algo sobre a vida que estamos tentando construir.

Não porque todo desconforto seja bom.

Mas porque algumas coisas precisam de tempo, repetição, paciência e uma disposição quase absurda para continuar aprendendo.

Ainda erro pedidos no café.
Ainda tenho dias em que termino o turno com a sensação de que poderia ter feito tudo melhor. Ainda há momentos em que olho para o Valentin e me pergunto como alguém pode confiar tanto em uma pessoa que, até pouco tempo atrás, precisava pesquisar no Google quantas camadas de roupa um recém-nascido deveria usar.

Talvez a resposta seja que ninguém começa pronto.

A gente aprende a ser alguém enquanto tenta fazer as coisas que esse alguém precisa fazer.

Hoje à noite, provavelmente vou acordar algumas vezes (que doçura esse meu otimismo). Talvez amanhã eu chegue ao trabalho com sono. Talvez prepare um café ruim e precise refazê-lo.

O mundo continuará cheio de pequenas coisas que não sei fazer direito.

Por enquanto, o Valentin está dormindo no quarto ao lado.

A casa está silenciosa. Há uma caneca esquecida na pia e uma luz acesa no corredor.

Vou deixar tudo assim por mais alguns minutos.

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