o de sempre, por favor
Todo sábado, 9:10am.
A porta abre, o sino toca, entra um cheiro de chuva junto com ele. Casaco verde. Mochila surrada. Jornal dobrado debaixo do braço.
Ele não olha o cardápio. Ele acena. E antes dele chegar no balcão, o flat white já tá saindo da máquina.
Eu já vi essa cena umas trezentas vezes.
Dos dois lados do balcão. E demorei pra entender o que ela tem de esquisito: nada ali foi otimizado.
Ele não escolheu o melhor café da cidade. Ele escolheu o café dele.
Eu chamo isso de a arte de ser freguês.
E a primeira lição é simples: pare de otimizar. Porque a gente otimiza tudo.
Abre o mapa. Compara nota. Lê review de um estranho que jurou que o flat white de um lugar a 40min da sua casa "mudou a vida dele".
Atravessa a cidade. Posta o copo. No sábado seguinte, tudo de novo, num lugar novo. Vai que o próximo é ainda melhor.
Eu faço isso. Direto. Sou o primeiro a salvar o post do café novo.
O cara do casaco verde não. Ele atravessa a cidade no sentido contrário pra tomar o mesmo café, na mesma mesa, do lado das mesmas pessoas.
E eu fico aqui me perguntando o que ele sabe que eu ainda não aprendi.
Pensa comigo: o que ele compra, de verdade?
O flat white é só o que sai da máquina.
O que ele leva pra casa é o aceno.
É entrar e existir antes de pedir.
É o "e aí, sumido" depois de duas semanas fora.
É alguém notar que você sumiu num mundo que mal nota que você existe.
Tem um nome em inglês pra isso: familiar strangers. Estranhos familiares.
O cara da janela. A mulher do coado com um livro grosso demais pra carregar.
Vocês nunca trocaram uma palavra. Mas se um deles sumir por um mês, o outro percebe.
É uma comunidade sem grupo no WhatsApp. Sem lista de transmissão. Sem evento com RSVP.
Dizem que uma cidade vira casa quando você tem os seus lugares.
Eu acredito. A casa mora na repetição. O barista que já sabe: sábado é flat white, dia de semana é coado. O "melhorou da gripe?" dito por alguém que você nem sabia que tinha reparado na sua tosse.
Eu sei o nome de uns vinte fregueses. O resto eu conheço pelo pedido. "oat cappuccino extra hot?" também é um nome.
a paciência do freguês
O cara do casaco verde me ensinou uma coisa sem abrir a boca: paciência.
Ser freguês é repetição sem garantia.
Você volta no sábado sem saber se o barista tá de bom humor. Se a mesa tá livre. Se o leite vai texturizar direito.
Você volta assim mesmo. A repetição é o voto de confiança.
E isso me lembra a minha casa nos últimos meses.
Quem é pai de primeira viagem aprende rápido: recém nascido não tem rotina.
Bebê tem caos com fralda.
Você tenta o horário. Tenta o ritual. Tenta o aplicativo que promete o sono perfeito em sete passos. O bebê olha pro seu planejamento como quem olha pra uma piada interna que só ele entendeu.
Nada funciona duas vezes seguidas.
E mesmo assim, 3am, lá tá você de novo. O mesmo colo. O mesmo “sssshhhh” até dormir. A mesma paciência.
É o bebê que ensina. Não o contrário.
Ele não tem paciência nenhuma, e é por isso mesmo que você aprende a ter.
Consistência vai além de controle. É presença repetida.
É voltar pro mesmo lugar e fazer a mesma coisa sem garantia de resultado, porque é isso que constrói alguma coisa.
apenas apareça
O freguês e o pai de recém-nascido praticam a mesma arte: aparecer de novo, sem saber se vai dar certo.
Cada dia é um dia. Cada noite é uma noite. E ambos vão aparecer de novo.
A vida é feita dessas repetições sem plateia.
E é difícil. Freguês dá trabalho.
Não o trabalho de fazer o café. O trabalho de lembrar. Guardar na cabeça, entre cinquenta rostos apressados, que o cara do casaco verde toma flat white sem açúcar e lê o jornal de trás pra frente.
Memória é hospitalidade. E hospitalidade cansa.
Mas é um cansaço bom. O cansaço de construir uma coisa que não aparece no relatório de vendas.
Claro que tem o outro lado. Todo café tem um.
O freguês que virou dono. Que olha torto pra quem sentou "na mesa dele". Que confunde intimidade com propriedade.
Ser conhecido é um privilégio. Achar que privilégio é direito é onde a arte vira vício.
Eu já fui esse cara em algum lugar da minha vida, provavelmente.
A gente sempre é, em algum lugar. O truque é perceber a tempo. (E pedir desculpa. De preferência antes do café esfriar.)
Sábado que vem ele vai entrar às 9:10am. Casaco verde. Mochila surrada. Jornal debaixo do braço.
E eu vou fazer o flat white dele antes dele pedir. Não porque o nosso café é o melhor da cidade. Talvez nem seja.
Mas porque, por alguns minutos, aquele balcão é o lugar onde ele é esperado.
E ser esperado é o contrário de ser otimizado.
ninguém otimiza saudade
Semana passada um freguês reparou que eu sumi por duas semanas. Quando voltei, ele soltou sem pensar:
"achei que tinha me abandonado".
Eu ri. Disse que meu filho tinha nascido. Ele sorriu. Me parabenizou. E pediu o de sempre.
Teve um segundo ali, entre o pedido e o primeiro gole, que a gente se olhou com aquela cara de: que bom que você voltou.
Ninguém disse nada. Não precisava.
Esse e-mail termina aqui. O resto, é seu.
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