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por Paiva

Oct 05 • 4 min read

a arte de ser freguês


o de sempre, por favor

Todo sábado, 9:10am.
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A porta abre, o sino toca, entra um cheiro de chuva junto com ele. Casaco verde. Mochila surrada. Jornal dobrado debaixo do braço.

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Ele não olha o cardápio. Ele acena. E antes dele chegar no balcão, o flat white já tá saindo da máquina.

Eu já vi essa cena umas trezentas vezes.
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Dos dois lados do balcão. E demorei pra entender o que ela tem de esquisito: nada ali foi otimizado.
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Ele não escolheu o melhor café da cidade. Ele escolheu o café dele.

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Eu chamo isso de a arte de ser freguês.

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E a primeira lição é simples: pare de otimizar. Porque a gente otimiza tudo.
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Abre o mapa. Compara nota. Lê review de um estranho que jurou que o flat white de um lugar a 40min da sua casa "mudou a vida dele".
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Atravessa a cidade. Posta o copo. No sábado seguinte, tudo de novo, num lugar novo. Vai que o próximo é ainda melhor.

Eu faço isso. Direto. Sou o primeiro a salvar o post do café novo.

O cara do casaco verde não. Ele atravessa a cidade no sentido contrário pra tomar o mesmo café, na mesma mesa, do lado das mesmas pessoas.
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E eu fico aqui me perguntando o que ele sabe que eu ainda não aprendi.

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Pensa comigo: o que ele compra, de verdade?

O flat white é só o que sai da máquina.
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O que ele leva pra casa é o aceno.
É entrar e existir antes de pedir.

É o "e aí, sumido" depois de duas semanas fora.
É alguém notar que você sumiu num mundo que mal nota que você existe.

Tem um nome em inglês pra isso: familiar strangers. Estranhos familiares.
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O cara da janela. A mulher do coado com um livro grosso demais pra carregar.

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Vocês nunca trocaram uma palavra. Mas se um deles sumir por um mês, o outro percebe.
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É uma comunidade sem grupo no WhatsApp. Sem lista de transmissão. Sem evento com RSVP.

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Dizem que uma cidade vira casa quando você tem os seus lugares.

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Eu acredito. A casa mora na repetição. O barista que já sabe: sábado é flat white, dia de semana é coado. O "melhorou da gripe?" dito por alguém que você nem sabia que tinha reparado na sua tosse.
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Eu sei o nome de uns vinte fregueses. O resto eu conheço pelo pedido. "oat cappuccino extra hot?" também é um nome.

a paciência do freguês

O cara do casaco verde me ensinou uma coisa sem abrir a boca: paciência.

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Ser freguês é repetição sem garantia.
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Você volta no sábado sem saber se o barista tá de bom humor. Se a mesa tá livre. Se o leite vai texturizar direito.
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Você volta assim mesmo. A repetição é o voto de confiança.

E isso me lembra a minha casa nos últimos meses.
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Quem é pai de primeira viagem aprende rápido: recém nascido não tem rotina.
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Bebê tem caos com fralda.
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Você tenta o horário. Tenta o ritual. Tenta o aplicativo que promete o sono perfeito em sete passos. O bebê olha pro seu planejamento como quem olha pra uma piada interna que só ele entendeu.

Nada funciona duas vezes seguidas.
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E mesmo assim, 3am, lá tá você de novo. O mesmo colo. O mesmo “sssshhhh” até dormir. A mesma paciência.

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É o bebê que ensina. Não o contrário.

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Ele não tem paciência nenhuma, e é por isso mesmo que você aprende a ter.

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Consistência vai além de controle. É presença repetida.
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É voltar pro mesmo lugar e fazer a mesma coisa sem garantia de resultado, porque é isso que constrói alguma coisa.

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apenas apareça

O freguês e o pai de recém-nascido praticam a mesma arte: aparecer de novo, sem saber se vai dar certo.
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Cada dia é um dia. Cada noite é uma noite. E ambos vão aparecer de novo.
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A vida é feita dessas repetições sem plateia.

E é difícil. Freguês dá trabalho.
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Não o trabalho de fazer o café. O trabalho de lembrar. Guardar na cabeça, entre cinquenta rostos apressados, que o cara do casaco verde toma flat white sem açúcar e lê o jornal de trás pra frente.
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Memória é hospitalidade. E hospitalidade cansa.
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Mas é um cansaço bom. O cansaço de construir uma coisa que não aparece no relatório de vendas.

Claro que tem o outro lado. Todo café tem um.
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O freguês que virou dono. Que olha torto pra quem sentou "na mesa dele". Que confunde intimidade com propriedade.
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Ser conhecido é um privilégio. Achar que privilégio é direito é onde a arte vira vício.
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Eu já fui esse cara em algum lugar da minha vida, provavelmente.
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A gente sempre é, em algum lugar. O truque é perceber a tempo. (E pedir desculpa. De preferência antes do café esfriar.)

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Sábado que vem ele vai entrar às 9:10am. Casaco verde. Mochila surrada. Jornal debaixo do braço.
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E eu vou fazer o flat white dele antes dele pedir. Não porque o nosso café é o melhor da cidade. Talvez nem seja.
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Mas porque, por alguns minutos, aquele balcão é o lugar onde ele é esperado.

E ser esperado é o contrário de ser otimizado.
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ninguém otimiza saudade

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Semana passada um freguês reparou que eu sumi por duas semanas. Quando voltei, ele soltou sem pensar:

"achei que tinha me abandonado".

Eu ri. Disse que meu filho tinha nascido. Ele sorriu. Me parabenizou. E pediu o de sempre.
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Teve um segundo ali, entre o pedido e o primeiro gole, que a gente se olhou com aquela cara de: que bom que você voltou.
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Ninguém disse nada. Não precisava.

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