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por Paiva

Dec 28 • 3 min read

Em 2026, Soft Skills seguem caríssimas. Hard Skills estão baratas.


tem coisa estranha acontecendo

Não é barulho.
Não é excesso de informação.
Não é nem cansaço...embora ele esteja sempre ali, rondando.

É outra coisa.

Uma sensação incômoda de que as pessoas estão performando maturidade.

Vestindo competência como figurino. Falando com segurança antes de entender o contexto. E, pior:

Sendo recompensadas por isso.

No começo, eu confesso, dá vontade de revirar os olhos.

“Pronto. Mais um especialista instantâneo.”
“Mais alguém confundindo confiança com experiência.”
“Mais uma pessoa achando que rapidez é sinônimo de profundidade.”

Rage bait fácil, eu sei. Mas segura comigo um pouco.

Não é sobre eles. É sobre o ambiente que a gente construiu pra isso florescer.

experiência não se compra (ainda)


Trabalho num café onde tudo é aberto.

O bar. As mãos. O erro. O acerto. As pessoas assistem você trabalhar.

Elas veem quando você acerta uma latte art perfeita. E veem quando você não acerta.

Quando o leite passa meio segundo do ponto.
Quando o fluxo aperta.
Quando o caos entra pela porta.

É um lugar honesto demais pra fingimento durar muito tempo.

No Nemesis do Polygon Gallery, tem gente tecnicamente muito boa. Ágil. Rápida. Processo na ponta da língua.

Mas, de repente, o atrito não vinha do trabalho. Vinha da forma.

Interrupções atravessadas.
Correções feitas na frente de cliente.
Confrontos pequenos, mas públicos demais.
Confiança que escorrega fácil pra rigidez.

Nada grave. Nada “errado”. Só… imaturo.

E isso me fez pensar numa coisa que talvez seja meio impopular de dizer:

Hard skills hoje estão baratas.

Soft skills continuam caríssimas.

despreparado emocionalmente?

Não ignore 2025. Tenha sido ele bom ou não pra você. Apenas... não ignore.

A gente vive num tempo em que aprender a fazer algo ficou absurdamente rápido.

Vídeos. Tutoriais. Cursos. Templates. Inteligência Artificial.

Em semanas, alguém sai do zero ao “funcional”. Em meses, ao “impressionante”.

E isso é incrível. Mas também criou uma ilusão silenciosa:

A de que saber fazer equivale a estar pronto. Não equivale. Nunca equivaleu.

2025 foi o ano em que isso ficou impossível de ignorar.

Nunca tivemos tanta gente competente.
Nunca tivemos tanta gente despreparada emocionalmente.

As tecnologias mais modernas de hoje fizeram um estrago curioso (e silencioso):

Ela premiou quem fala rápido, reage rápido, se posiciona rápido, mesmo quando o conteúdo interno ainda está cru.

As plataformas não pedem maturidade. Pedem apenas presença.

O problema é que presença sem profundidade vira ruído com autoestima.

briga na frente do bar

Eu me vi do outro lado disso tudo também.

Me cobrando demais. Tentando fazer tudo perfeito, até quando não precisava.

Latte art impecável em copo com tampa. Detalhe onde ninguém ia ver.

Até perceber algo libertador:

Nem sempre excelência é manter o padrão. Às vezes é saber quando soltar o controle. Se permitir ("se permitir" resume meu 2025).

Ver gente mais “experiente” deixando a forma cair quando o fluxo aperta… me tirou um peso estranho dos ombros.

Não como desculpa.
Mas como contexto.

“Ok. Talvez eu não esteja atrasado.
Talvez eu só esteja no tempo certo.”

E ai me vi assistindo uma briga.

Uma barista envolvida em uma discussão pessoal diante do bar, enquanto finalizávamos os cafés.

Voz baixa, mas visível. Em horário de trabalho. Com cliente passando.

Ali ficou claro, sem drama nenhum:

Ninguém ensina bom senso.
Ninguém treina leitura de ambiente.
Ninguém faz workshop de ego.

Isso você aprende vivendo.
Errando.
Passando vergonha.
Sendo corrigido quando dói um pouco.

Ou não aprende, né...

Trabalhar com gente mais nova, que sente que precisa se provar o tempo todo, é C-A-N-S-A-T-I-V-O.

Mas também é um espelho. Porque eu já fui essa pessoa.

Você já foi (ou ainda é) essa pessoa.

Sem drama. Não leve para o pessoal.

Eu também já achei que precisava mostrar. Que precisava me posicionar o tempo todo. Que precisava parecer mais experiente do que era.

Quando, na real, o que faltava era silêncio.
E trabalho.
E tempo.

Tempo não como espera. Tempo como fricção.

na instabilidade, sobra o essencial

Hoje, meu papel é simples:

Não é ensinar.
Não é corrigir.
Não é disputar espaço.

É manter a loja funcionando. Os clientes bem. O processo fluindo.

E, quando dá, liderar sem cargo. Sem discurso. Sem lição de moral. Sem plateia.

Porque liderança, no fim, é comportamento repetido em dia ruim.

E fora dali, a vida resolveu testar de outra forma também.

Banheiro de casa quebrado.
Mudança improvisada pra casa de amigos.

Casa emprestada.
Shifts longos.

Cachorro pra cuidar.
Minha esposa no Brasil.

Tudo ao mesmo tempo.

E, curiosamente, isso não me quebrou. Me organizou.

Quando tudo fica instável, o que sobra é o essencial.

Um dia de cada vez.
Um café de cada vez.
Uma conversa de cada vez.

Talvez o maior erro que a gente cometa hoje seja confundir velocidade com evolução.

Nem todo mundo que parece pronto… está.
Nem todo mundo que está quieto… está perdido.

Algumas coisas só vêm com o corpo presente e tempo.
Sem atalho. Sem prompt. Sem upload.

E tá tudo bem.

Respira.
Continua.
O resto amadurece.

Que permissões você vai se dar em 2026?

Esse e-mail termina aqui. E 2025 também.

O resto, incluindo 2026, é seu.

Feliz Ano Novo.

@paiva // @jppaiva._ // paiva.me

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