2026 não é o ano da IA
É o ano do quizz.
Eu sei. Dramático.
Mas deixa eu te contar uma cena que parece pequena e é exatamente por isso que ela é perigosa.
Como você sabe, faço alguns turnos no Dope Bakehouse.
Cheiro de manteiga quente preso no moletom. A vitrine brilhando. A fila andando naquele ritmo de “se você errar um botão, isso vira uma novela”.
E aí vem o anúncio, com aquela energia de professor substituto que chegou atrasado e quer compensar gritando:
“Semana que vem eu vou fazer um quizz com todo mundo. Quero todo mundo decorando ingredientes.”
Quizz. No meio de uma operação viva.
Com gente. Com barulho. Com leite queimando. Com um croissant que some da vitrine em 40 segundos.
E eu penso:
“Só pode estar de sacanagem. Você tá falando sério?”
Porque tem um tipo de liderança que não lidera.
Ela fiscaliza.
Ela cria uma prova porque não sabe criar um ambiente.
Ela pede memória porque não sabe construir clareza.
Ela faz o time decorar porque o sistema não se comunica.
E pronto: nasce a religião moderna do trabalho.
A religião onde o erro vira pecado, e a pergunta vira ameaça.
o cara tem nome e sobrenome
Mas vou poupa-lo e preservar a sua identidade por motivos óbvios: internet.
Então vou chama-lo de Alex.
Alex tem energia infinita.
Alex tem coração bom.
Alex tem um ego do tamanho de um painel de tendências com fonte 88.
Ele está perto do poder. Ele sabe as inside infos.
E isso dá a ele aquela sensação de “eu sou do time de cima”, mesmo quando o time de cima só quer que o turno feche sem incêndio.
Ele é aquele tipo de pessoa que:
- repete o que você falou, só que com mais palavras, pra parecer que ele inventou
- interrompe atendimento pra “aparecer” (principalmente quando a cliente é jovem e bonita. Sim, eu vi)
- corrige no meio da conversa, como se hospitalidade fosse um formulário
- transforma qualquer segundo livre em “por que você não fez X também?”
E, ao mesmo tempo…
Ele não é vilão. Ele é um sintoma.
Ele é o resultado de um mundo que confunde confiança com performance.
Um mundo que ensinou pra muita gente que liderança é saber responder rápido, mesmo quando você não sabe.
E aí eu lembro de uns slides, típicos de conferência corporativa.
Aqueles slides lindos, com números grandes, frases limpas, estética de “isso aqui foi aprovado pelo comitê do bom gosto corporativo”.
“2026 será o ano em que…”
IA vira infraestrutura. Reskilling vira cultura. O “como” vale tanto quanto o “o quê”.
Tem até porcentagem:
- 60% dos empregadores falando de gap de habilidades.
- 39% das habilidades essenciais mudando até 2030.
E eu olho pra isso e penso:
“Tá. E o que isso tem a ver com um barista apanhando de ticket e de liderança egocêntrica?”
Tem tudo. Porque 2026, do jeito que estão vendendo, tem uma pegadinha:
A gente vai chamar de “aprendizado” um monte de coisa que é só ansiedade com verniz.
a era da intencionalidade (na vida real)
Na prática, intencionalidade não é um post bonito falando de foco e estar presente.
É quando você escolhe o que não vai fazer, mesmo se alguém fizer cara feia.
É quando você entende que ritual é engenharia de atenção. Não é mimimi.
No café e hospitalidade, intencionalidade é:
- reduzir ruído pra reduzir erro
- combinar sinal curto entre baristas pra não virar telefone sem fio
- ter informação no lugar certo, na hora certa
- parar de “descobrir o menu no dia” como se isso fosse adrenalina saudável
Se o time precisa decorar ingrediente porque o sistema não entrega informação, não é “alta performance”. É gambiarra organizacional.
polimatia e generalismo criativo (na vida real)
Tem uma coisa engraçada no meu momento atual: eu saí de tech (onde todo mundo fala de aprender) e vim parar num lugar onde aprendizado acontece.
Sem palestra.
Sem PDF.
Sem “learning culture” no mural.
Aqui, você aprende em 3 segundos:
O cliente muda o tom de voz, você ajusta sua energia.
O leite começa a chiar diferente, você sabe que passou do ponto.
O colega te olha de canto, você entende que precisa puxar prato da mesa agora.
Isso é polimatia. Isso é generalismo criativo.
Só que sem glamour. Com louça. Com fila. Com corpo. Com gente te olhando.
A tecnologia não está só “ajudando”. Ela está definindo o que a gente considera competência.
Se uma ferramenta consegue tornar o medíocre em “genial” com um template, um prompt e um filtro… muita gente vai confundir resultado com evolução.
E vai viver achando que está crescendo, quando só está acelerando um mecanismo.
A parte polêmica (e eu sei que vai ter gente que vai discordar):
a IA deixa mais óbvio quem tem repertório
… e quem só tem atalho. E atalho vicia.
Porque atalho dá dopamina rápido. Dá aquela sensação de
Só que produção sem direção é só barulho bem editado.
E 2026, se a gente não prestar atenção, vira isso: Um mundo de gente “eficiente” demais… e incapaz de sustentar uma ideia sem muleta.
volto pro Alex
Quando ele fala do quizz, ele acha que está criando padrão.
Ele acha que está elevando nível. Ele acha que está “treinando” o time.
Só que o que ele está fazendo é outra coisa. Ele está tentando controlar a incerteza com uma prova.
Porque prova dá sensação de ordem e ordem dá sensação de poder. Só que poder, em operação de verdade, não vem do controle.
Vem do cuidado.
Vem de ambiente.
Vem de comunicação.
Vem de alguém olhar pra bagunça e falar:
“Beleza. Eu seguro essa parte. Você segura aquela. E a gente atravessa junto.”
Eu me vejo nele aos 25. De verdade.
E se você também está pelos seus 30 e poucos, também deve se ver nele.
Não no teatro da liderança. Mas naquela sensação interna de “eu sou mais pronto do que eu sou”.
Eu também tive essa confiança meio inflada, meio infantil, meio bonita.
Porque juventude tem isso, né... Ela é uma promessa ambulante.
A diferença é que a vida, com o tempo, vai te cobrando outra moeda.
Menos discurso. Mais consistência.
Menos resposta. Mais escuta.
Menos “eu sei”. Mais “me mostra”.
E isso, curiosamente, é o tipo de coisa que não cabe num slide.
Então se você me perguntar “o que 2026 pede?”, eu respondo assim:
2026 pede menos performance de aprendizado.
Pede mais aprendizagem com atrito real.
Pede a coragem de aceitar que nem tudo precisa virar método.
E que nem tudo precisa virar conteúdo. Tem coisa que precisa virar habilidade.
No corpo. No olhar. No timing.
eu não quero “consertar” o "Alex"
Eu quero que ele sobreviva ao próprio ego sem precisar que alguém quebre ele no meio.
Porque tem uma diferença enorme entre derrubar alguém… e ajudar alguém a aterrissar.
E talvez essa seja a habilidade mais rara da próxima fase:
criar ambientes onde a confiança não precise virar ego para se proteger.
Hoje, enquanto escrevo isso no meu dia off, eu fecho o laptop e sinto um tipo específico de esperança.
Não aquela esperança de guru. Uma esperança menor, prática, de fim de tarde.
Tipo quando você ajusta um detalhe no workflow e o turno seguinte fica 10% menos caótico.
Eu gosto dessa esperança. Ela não grita. Ela funciona.
E se 2026 for isso, eu topo.
Esse e-mail termina aqui.
O resto, é seu.
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