postei, apaguei, desisti, cansei...
Outro dia eu fiquei alguns minutos parado, com o celular na mão, antes de postar uma coisa simples nos meus stories.
Nada polêmico.
Nada pessoal demais.
Nada estrategicamente pensado.
Mesmo assim, parei.
Apaguei. Reescrevi. Pensei em como soaria. Em quem poderia entender errado. Em quem poderia gostar demais.
E aí não postei.
Não por autocontrole, muito menos estratégia. Não estou nem "presente" em redes sociais como criador de conteúdo.
Foi por exaustão mesmo.
Essa fadiga estranha de quem não trabalhou com o corpo, mas gastou energia como se tivesse carregado móveis.
Talvez você conheça.
A sensação de estar cansado sem ter feito algo “concreto”. De passar o dia produzindo… sem produzir nada que fique.
Foi ouvindo uma conversa entre o Matheus Sodré e a Valen Bandeira que esse desconforto ganhou nome e contorno.
Eles falam de performance. Falam da performance bonita. Mas acima de tudo, falam da necessidade constante de performar a si mesmo.
quando o personagem funciona e depois não
Tem um momento em que a Valen diz algo muito simples, quase jogado fora, mas brutalmente honesto:
"o personagem da internet é curto."
Ele nasce rápido.
Funciona rápido.
Exaure rápido.
E o problema não é o personagem existir.
Todo mundo performa alguma coisa.
O problema começa quando o personagem vira o trabalho inteiro.
Quando você passa a depender dele para existir profissionalmente.
Quando ele precisa acordar todos os dias com algo a dizer.
Quando ele não pode amadurecer porque maturidade não engaja tão fácil.
A internet ama frescor. Mas desconfia de profundidade. Ama o gesto espontâneo. Mas penaliza quem amadurece e muda de tom.
E aí acontece uma violência silenciosa: o crescimento pessoal começa a atrapalhar o trabalho.
Você amadurece. Fica menos caricatural. Menos reativo. Menos “personagem”.
E isso, paradoxalmente, te torna menos funcional para a lógica da plataforma.
Simplesmente porque ficou mais inteiro.
ineficiência como sintoma
É aqui que a palavra “ineficiência” começa a fazer sentido pra mim.
Não como falta de método.
Não como preguiça.
Não como desorganização.
Como resultado natural de viver em estado permanente de performance.
Quando tudo é imagem, você precisa administrar tudo. Quando tudo é publicação em potencial, nada descansa.
Você consome para “se manter relevante”.
Você observa para “não ficar por fora”.
Você responde para “não perder timing”.
E isso cria uma ilusão perigosa: a de que você está se alimentando, quando na verdade só está se mantendo visível.
No vídeo, a Valen fala desse vício de estar “por dentro”. Dessa ansiedade supersticiosa de achar que, se ficar longe, algo acontece e você perde.
Mas o que se perde, muitas vezes, não é o timing.
É o repertório. A internet entrega faíscas. O trabalho real exige lenha.
E faísca não sustenta fogo nenhum por muito tempo.
a contradição que não pede desculpa
E tem uma honestidade rara ai: reconhecer que dá pra ganhar dinheiro com algo que também adoece.
Sem moralismo. Sem discurso de pureza. Não é “vou sair das redes”. Não é “o sistema é mau e eu sou vítima”.
É mais incômodo do que isso. É saber que o jogo existe, que você joga, mas ainda assim escolher não reduzir tudo a vitrine.
Escolher respeitar a atenção de quem está do outro lado. Entregar algo que não seja só mais um personagem cumprindo agenda.
Isso exige uma coisa que a internet não incentiva: tempo longo.
Tempo de errar. De ficar sem postar. De parecer menos interessante por um período. Tempo de voltar às origens como forma de reabastecimento e entender que não é só nostalgia.
e onde isso encosta em mim?
Talvez por isso eu tenha ido parar no café. Porque ali, personagem curto não se sustenta.
O cliente denuncia. O chefe percebe. O café cobra presença real.
Você não performa cuidado. Ou você cuida, ou não funciona. Hospitalidade tem memória. Tem repetição. Tem gesto que melhora com o tempo, não com o alcance, com viralização.
E talvez essa seja isso.
Trabalhos que exigem maturidade não cabem em personagens exaustos. E sistemas que premiam só o curto prazo tendem a quebrar quem cresce.
Ou ao menos tentam quebrar. Porque tem pessoas que não suportam. Tem pessoas que furam a barreira e se reinventam.
Não é fácil. Não está fácil.
A pergunta que ficou comigo, e que eu deixo com você, é simples e suficientemente desconfortável:
"Você anda cansado porque trabalha demais… ou porque passa tempo demais sustentando um personagem que já venceu?"
Esse e-mail termina aqui.
O resto, é seu.
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