toda história tem 3 lados
O meu.
O seu.
E o que realmente aconteceu.
Mas a gente vive como se existisse mais um. O lado que aparece no feed.
E, de algum jeito, esse costuma ser o que mais pesa.
É quase cômico, se não fosse preocupante de um jeito silencioso.
Porque a gente posta um vídeo, manda um reels, reage a um story, compartilha um meme por DM…e pronto. A sensação é que agora somos íntimos e sabemos como a outra pessoa está.
Como ela vive. Como ela pensa.
Se ela está feliz.
Se está bem.
Se mudou.
Se ficou estranha.
Se ficou distante.
Como se a vida inteira coubesse dentro de um retângulo de vidro.
Não cabe.
domingo de manhã
Hoje acordei reflexivo, com um ar introspectivo além do habitual.
Apesar de estar tentando folgar Domingo e Segunda, lá estava eu correndo atrás de mais um turno para fazer hora.
Sol. Dia lindo em Vancouver. Café abarrotado.
Ao contrário do que nós, brasileiros, esperamos, quando chove em Vancouver, os coffee shops ficam vazios.
Em dias de sol, um formigueiro em dia de açúcar.
E isso significa:
Gente olhando o celular enquanto espera.
Gente olhando o celular enquanto conversa.
Gente olhando o celular enquanto finge que não está olhando o celular.
E eu atrás do bar, tirando espresso, fazendo latte art, ouvindo pedidos, limpando mesa, tentando lembrar quem pediu leite de aveia e quem pediu integral.
Na internet, quem assiste a esse recorte de uma cafeteria, vê só um pedaço. O resto, a imaginação resolve.
Apenas cheio ou baristas ineficientes?
Apenas cheio ou está tendo um evento?
Apenas cheio ou tão gravando uma novela lá dentro?
Imagina quantas histórias podem ser criadas a partir do que apenas... enxergamos?
Agora imagina outra coisa:
"Quantas histórias a gente já inventou na própria cabeça só porque viu meia dúzia de posts?
lembra daquele review?
Pois é.
Desde aquele Google Review (não tinha te contado, mas ele resolveu reaparecer), parece que alguma coisa em mim ficou mais alerta do que o normal.
Como se tivesse nascido uma antena nova. E ela não desliga.
Qualquer comentário eu noto.
Qualquer olhar eu interpreto.
Qualquer silêncio eu já acho que significa alguma coisa.
É meio ridículo admitir, mas um comentário sozinho foi suficiente pra me tirar do eixo por uns bons dias.
iquei tão encucado que comecei a ler sobre avaliações online destruindo pequenos negócios.
Título dramático. Cliquei mesmo assim.
Restaurantes. Clínicas. Salões. Cafés.
Anos de trabalho. Anos de gente chegando cedo, fechando tarde, aprendendo nome de cliente, acertando receita, errando receita, tentando de novo.
Tudo comprimido em um número com uma estrela do lado.
O texto citava um estudo óbvio. Daqueles que só parecem óbvios depois que alguém escreve.
Pessoas insatisfeitas têm 2 ou 3 vezes mais chance de escrever uma avaliação do que pessoas satisfeitas.
Ou seja, a vitrine já nasce distorcida.
10mil clientes felizes. 20 irritados. Quem fala?
Os 20. Claro.
Na prática, o que circula mais é o que mexe mais com as pessoas. Quanto mais emoção tem, mais longe aquilo vai.
e isso explica muita coisa
Coisa que não tem nada a ver com Google Reviews.
Explica o Instagram.
Explica o X/Twitter.
Explica comentários.
Explica reputações.
Explica amizades que acabam sem conversa.
Explica gente que some.
Explica gente que decide que sabe tudo sobre você sem nunca ter perguntado nada.
Toda história tem três lados.
O meu.
O seu.
E o que realmente aconteceu.
Mas hoje a gente vive como se existisse só um.
O que aparece no feed.
E não é loucura dizer isso. A maior parte do dia passa dentro de um feed.
A gente vê fragmentos, lê legendas, e imagina o resto.
Com o tempo, a cabeça começa a tratar isso como se fosse a vida inteira.
imagine só... Duas horas rolando.
Scroll. Scroll. Like.
Scroll. Scroll. Scroll.
Like. Scroll. Scroll.
Tudo rápido. Sem pensar muito. Sem deixar assentar. Um descanso que parece descanso, mas não é descanso.
Quando tudo passa rápido, a cabeça decide rápido também.
Você vê uma foto e completa a história.
Vê alguém sorrindo e acha que está tudo certo.
Vê alguém sumido e já imagina problema.
A mente preenche. E o que ela inventa costuma parecer convincente demais.
Eu faço isso.
Você faz isso.
Todo mundo faz isso. O problema é que tem decisão grande demais sendo tomada assim.
Carreira.
Amizade.
Relacionamento.
Mudança.
Aproximação.
Distância.
Cancelamento.
Admiração.
Tudo apoiado numa superfície lisa. Bonita. Iluminada.
Mas fina demais pra sustentar tanto peso.
fora do feed, é menos óbvio
Quando você passa o dia lidando com gente de verdade, essa ilusão começa a falhar.
Você vê o cansaço.
Você vê a pressa.
Você vê o nervosismo.
Você vê a alegria de verdade, que é sempre menor e mais quieta do que parece no Instagram.
E também vê o contrário.
Gente que parece distante online e chega sorrindo no balcão.
Gente que parece feliz no feed e mal consegue escolher o que vai pedir.
Gente que parece confiante na internet e pede desculpa três vezes antes de falar.
A vida real não tem algoritmo (ainda não).
Tem pausa.
Tem hesitação.
Tem silêncio.
Tem contexto.
Talvez por isso eu esteja cada vez mais obcecado em estar e continuar presente.
De tentar viver as coisas antes de postar sobre elas.
De tentar entender antes de concluir.
De tentar perguntar antes de decidir.
Nem sempre consigo.
Às vezes eu também olho um story e acho que entendi tudo.
Às vezes eu também tiro conclusão rápido demais.
Às vezes eu também esqueço que existe um lado que eu não vi.
Mas trabalhar com gente, todo dia, no balcão, me lembra de uma coisa que a internet faz a gente esquecer:
"Quase ninguém é exatamente o que parece. Quase todo mundo está carregando alguma coisa que não cabe em post."
No balcão, você conversa. Observa. Ajuda. Serve.
E, às vezes, só isso já muda completamente a história.
A de quem serve.
A de quem é servido.
E a de quem está ali, apenas assistindo tudo acontecer.
Você serve, é servido, ou está só assistindo tudo acontecer?
Esse e-mail termina aqui.
O resto, é seu.
@paiva // @jppaiva._ // paiva.me