todo mundo quer ser feliz
Principalmente no trabalho.
Mas, olhando de perto, parece que ninguém quer. Tive esse insight ouvindo uma conversa.
Ok. Ouvindo de canto. Não vou negar.
Fila do café. Manhã de sábado. Gente com cara de quem já começou o dia atrasado.
Dois caras atrás de mim.
Terno escuro, celular na mão, voz alta demais para um sábado de manhã. Não tinha como não ouvir.
“Essa semana tá insana.”
“Minha agenda tá impossível.”
“Nem sei como vou dar conta.”
Eles falavam com um orgulho estranho. Quase como quem mostra cicatriz de guerra.
Eu crio bode rápido desse tipo de conversa (de gente).
Agenda cheia virou medalha. Exaustão virou currículo. Falta de tempo virou sinal de importância.
E ninguém estranha isso tudo. Ninguém pergunta o óbvio:
“Mas você está feliz, meu filho?”
Eu sei. Parece mais um texto sobre felicidade mastigado via ChatGPT.
Mais um content creator dizendo pra largar tudo e abrir uma pousada no interior.
Mais um vídeo com música lo-fi e legenda falando pra viver o presente.
Calma. O que me incomoda não é a correria.
É que quase ninguém percebe o que realmente faz alguém gostar do próprio trabalho.
duas métricas
Eu li e ouvi de um cara que sabe do que está falando que existe uma explicação mais técnica do que parece.
E menos romântica do que o Instagram gostaria.
duas métricas, apenas.
Felicidade no trabalho costuma depender de duas coisas. Não dez. Não cinquenta.
Duas.
1. Controle sobre o próprio tempo.
2. E chance de criar algo que não existia antes.
Quando você começa a olhar o mundo com esse filtro, a história muda. Pensa num piloto de avião.
Quando a porta fecha, acabou.
O horário de partida já está decidido, a rota já está decidida, o pouso já está decidido.
Não importa se ele teve uma ideia boa às três da tarde.
Não importa se queria parar um pouco.
Não importa se queria fazer diferente.
O tempo já não é dele mais. Isso não quer dizer que é um trabalho ruim.
Só quer dizer que existe um custo invisível ali. Uma espécie de asfixia de agenda.
Acorda.
Cumpre horário.
Responde mensagem.
Entrega coisa.
Marca reunião.
Abre outra reunião.
Fecha o dia cansado sem saber exatamente o que construiu.
Não falta esforço. Não falta disciplina. Não falta meta.
Falta autoria.
a segunda coisa é ainda mais estranha
Criar.
Não no sentido artístico só. Criar no sentido literal. Algo que ainda não existe. Do zero.
Um prato que não existia.
Um texto que não existia.
Um projeto que não existia.
Uma conversa que não existia.
Existe uma sensação muito específica quando você abre um documento em branco.
Ou quando você pega uma xícara vazia.
Ou quando encara uma mesa sem nada em cima.
Um segundo antes não tinha nada.
Depois, tem.
Tem gente que acorda pensando
Tem gente que acorda pensando
“quero ver o que dá pra fazer hoje”.
É sutil, mas muda (quase) tudo.
3 horas de scroll
A gente passa seis horas por dia no celular. Mais de três só em rede social.
Isso você já sabe. Mas o problema aqui não é o tempo em si.
É a fragmentação. Hoje, scroll tem definido início, meio e fim de dia.
E quando você perde controle do tempo, perde também espaço pra criar.
Não porque não quer. Porque não sobra silêncio.
Nunca tivemos tanta ferramenta pra criar e nunca criamos tão pouco do que realmente é nosso.
Post.
Comentário.
Story.
Reply.
Thread.
Mensagem.
Compartilhamento.
AI.
AI.
AI.
AI.
Tudo resposta.
Resposta ao que apareceu. Resposta ao que alguém falou. Resposta ao que já estava pronto.
Pouca coisa começa realmente do zero. Pouca coisa começa em silêncio. Pouca coisa começa sem plateia. Pouca coisa começa sem tanta expectativa.
E quando você não controla o tempo e não cria nada que seja realmente seu, o trabalho vira manutenção.
Manutenção de agenda. Manutenção de imagem. Manutenção de expectativa. Manutenção de rotina. E manutenção cansa de um jeito estranho.
Muito estranho. Um cansaço de não sentir que o dia foi seu.
de tech para café. errei?
Tem um momento no café que eu gosto: o exato segundo em que a xícara ainda está vazia.
Antes do espresso cair, do leite entrar, antes de alguém pegar no balcão.
Nada aconteceu ainda.
É aquele segundo que antecede oitocentos e noventa e sete possibilidades de continuidade de histórias que se criam a partir de...
um café.
Parece ingênuo, talvez fantasioso demais. Mas eu vejo como um segundo real, concreto, que existe e antecede a algo novo. Criado do zero.
Talvez porque seja um segundo ainda com espaço pra criar alguma coisa.
Mesmo que seja alguma coisa pequena, ou que ninguém venha a perceber.
Por isso que eu digo.
Muita gente não está infeliz no trabalho porque escolheu a carreira errada.
Está infeliz porque perdeu essas duas coisas sem perceber.
Controle do tempo e chance de criar alguma coisa.
E eu já perdi também.
Quando olho pra trás, não foi que o trabalho não permitia criar.
Eu tive todas as oportunidades.
Tive projeto que começou do zero.
Tive ideia que foi minha.
Tive espaço.
o que mudou foi outra coisa
Eu parei de sentir vontade de criar dentro desses espaços. O tempo já não era meu.
Mas pior que isso… quando o tempo aparecia, eu já não sabia o que fazer com ele.
O dia já começava decidido. Call. Mensagem. Comentário. Ajuste. Outra call.
Tudo funcionando. Tudo certo. Mas quase nada começava vazio. E o mundo recompensa exatamente isso.
Agenda cheia vira status.
Resposta rápida vira eficiência.
Opinião pronta vira inteligência.
Presença constante vira relevância.
Agora, com IA então, ficou mais estranho ainda.
Nunca foi tão fácil produzir.
Nunca foi tão rápido entregar.
Nunca foi tão simples parecer que você fez.
E nunca foi tão difícil sentir que foi você mesmo.
Demorou pra eu perceber. Meses.
Meses desempregado, conversando com gente da área, tentando voltar pro mesmo caminho, tentando me convencer que era só achar o lugar certo.
Até que um dia eu tirei do bolso uma pergunta simples.
"Onde eu quero estar em cinco anos?"
A resposta não tinha nada a ver com tecnologia.
Não foi coragem. Não foi epifania.
Foi um incômodo sufocante que não passava.
Dali em diante, comecei a olhar pro café de outro jeito. Como um lugar onde aquelas duas coisas podiam existir de novo.
Um pouco mais de controle sobre o tempo.
Um pouco mais de espaço pra criar algo que começa vazio.
E, dali pra frente, a ideia não parou de crescer.
referência demais tira coragem
Eu ainda quero fazer tudo de um jeito original.
Ainda acho que devia estar fazendo algo maior.
Mais diferente. Mais inteligente. Mais digno de existir.
E isso atrapalha mais do que ajuda.
Expectativa demais tira liberdade.
Comparação demais tira autoria.
Referência demais tira coragem.
Aí você trava. Abre o celular. Fecha. Abre de novo. E o dia vai embora.
Mas às vezes acontece uma coisa simples.
Alguém pede um café. Eu faço. Entrego. A pessoa fala “obrigado” olhando no olho.
Nada viral.
Nada postável.
Nada otimizado.
Só um segundo que existiu de verdade.
E eu fico pensando se felicidade no trabalho não passa menos por encontrar o emprego perfeito e mais por conseguir proteger, no meio do barulho todo, um pedaço do seu tempo...
e um pedaço do que você cria.
O resto…
A gente vai ajustando.
Esse e-mail termina aqui.
O resto, é seu.
@paiva // @jppaiva._ // paiva.me