a prateleira dos outros
Eu tinha acabado de terminar.
Cliquei em exportar. Esperei a barrinha azul atravessar a tela. E aí aconteceu uma coisa muito adulta e muito estúpida.
Abri o YouTube.
Cinco minutos depois eu estava assistindo um vídeo do Van Neistat.
Dez minutos depois, já não gostava mais do que tinha feito.
É impressionante como a internet transformou comparação em um esporte de alto rendimento.
Você passa três horas tentando escrever uma frase.
Alguém publica uma obra-prima antes do almoço.
Você passa a semana inteira editando um vídeo.
Existe um adolescente na Noruega que aparentemente gravou, editou, coloriu e publicou algo melhor entre uma aula de química e outra.
É um truque cruel.
Porque normalmente a comparação acontece entre coisas que nem vivem no mesmo estágio de desenvolvimento.
Você está olhando para o seu rascunho e comparando com a obra pronta de alguém.
É como comparar massa de pão com croissant.
Os dois são farinha. Mas um deles já passou pelo forno.
eu sinto isso o tempo inteiro
Na escrita.
Nos vídeos.
No café.
Às vezes até conversando com outras pessoas.
Existe um momento específico em que alguma coisa muda.
Você deixa de ser apenas um admirador e decide tentar fazer aquilo. E é aí que começa o problema.
Porque admirar exige gosto. Fazer exige prática. E gosto costuma chegar muito antes da prática.
Foi assim comigo.
Antes de fazer vídeos no Youtube, eu já sabia reconhecer um vídeo bom.
Antes de escrever newsletters, eu já sabia reconhecer um texto bem feito.
Antes de trabalhar com café, eu já sabia exatamente como uma cafeteria deveria parecer, soar e cheirar.
A madeira certa.
A música certa.
A luz certa.
O copo certo.
O problema é que saber reconhecer excelência não produz excelência.
só produz frustração
Lembro dos primeiros vídeos que publiquei.
Alguns deles ainda estão escondidos em algum canto da internet.
E graças a Deus ninguém procura.
Eu assisto hoje e parece que fui sequestrado por uma versão paralela de mim mesmo.
A câmera tremia. O áudio era estranho. Eu falava rápido demais.
As ideias eram maiores do que a minha capacidade de executá-las.
Mas existia uma coisa boa ali.
Eu não sabia que deveria ter vergonha. Ainda não.
A vergonha chegou depois.
Quando meu gosto ficou mais sofisticado. Quando comecei a perceber tudo que estava errado. Quando comecei a enxergar a distância entre o que eu queria fazer e o que eu conseguia fazer.
A distância parecia enorme. E talvez fosse.
Esses dias eu estava fechando a loja.
As últimas bandejas já tinham sido lavadas. As luzes mais fortes estavam apagadas.
Ficava só aquele silêncio de cafeteria depois do expediente. Como se o lugar estivesse respirando pela boca.
Eu estava limpando uma máquina quando pensei numa coisa curiosa. Ninguém espera ser excelente no primeiro cappuccino. Ninguém faz uma tulipa perfeita no primeiro dia. Ninguém entra numa cafeteria na segunda semana de trabalho e pensa:
“estranho, eu ainda não sou um mestre.”
A gente entende que existe um caminho.
Um volume de repetições.
Um monte de leite desperdiçado.
Um monte de erros.
Um monte de cafés esquecíveis.
Por algum motivo, quando o assunto é arte, criação ou carreira, a gente esquece disso.
Queremos que a primeira tentativa já venha acompanhada de identidade própria.
De originalidade.
De assinatura.
De grandeza.
processo > resultado
A internet mostra o resultado.
Nunca o acúmulo.
Mostra o livro.
Não os cadernos.
Mostra o palco.
Não os ensaios.
Mostra o café servido.
Não os litros de leite derramados.
E aí parece que todo mundo nasceu pronto.
Menos você.
Talvez porque hoje passamos mais tempo olhando para a prateleira dos outros do que para a nossa bancada.
Outro dia encontrei um caderno antigo. As páginas estavam amareladas.
As ideias eram piores do que eu lembrava. Algumas eram genuinamente horríveis.
Mas havia algo bonito nelas. Elas existiam. Foram feitas. Continuaram empurrando a próxima ideia.
E a próxima.
E a próxima.
Como aqueles ônibus que saem do terminal e seguem viagem mesmo quando a paisagem ainda parece igual.
Você não percebe a mudança acontecendo.
Até que um dia olha pela janela e já está em outro lugar.
quando é o suficiente?
Talvez a maior armadilha criativa não seja falta de talento.
Nem falta de oportunidade. Nem falta de disciplina.
Talvez seja desistir cedo demais porque seu gosto chegou antes da sua habilidade.
E, convenhamos, isso é um problema bem elegante de se ter.
Significa que você sabe reconhecer algo bonito.
Significa que existe alguma coisa dentro de você apontando para uma direção.
A parte difícil é continuar andando quando ainda não consegue chegar lá.
Hoje, enquanto escrevo isso, existe uma boa chance de eu terminar este texto e pensar que ele poderia ser melhor.
Provavelmente poderia.
Mas a bancada ainda está aberta.
Ainda tem trabalho para fazer.
Ainda tem café para servir.
Ainda tem estrada depois do terminal.
Esse e-mail termina aqui.
O resto, é seu.
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