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por Paiva

Jun 29 • 6 min read

uma carta para o idiota carinhoso que eu era aos 26


eu lembro

Eu lembro de você sentado na frente do computador com um café ruim do lado.

Não era “café ruim” no sentido poético.

Era ruim mesmo. Meio queimado. Meio frio. Meio esquecido.

Um desses cafés que ficam ali, na mesa, como prova material de que a pessoa perdeu o controle da própria tarde.


Você tinha umas oito abas abertas.

LinkedIn. Gmail. Instagram. Algum texto sobre carreira. Alguma matéria sobre pessoas que ficaram milionárias antes dos 30. Alguma coisa com um título tipo “como construir uma vida extraordinária”.

Meu Deus.


A gente era muito fácil de enganar.

Você olhava para aquelas pessoas sorrindo em fotos de evento, de crachá no pescoço, blazer ajustado, legenda sobre gratidão, e sentia uma mistura muito específica de nojo e inveja.


Você odiava aquilo. Mas queria aquilo. Esse era o problema.


Você queria ser livre, mas também queria ser escolhido por todas as instituições que pareciam importantes.

Queria fazer arte, mas queria que a arte viesse com plano de saúde.

Queria desaparecer, mas só depois de ser reconhecido.


Fofo. Ridículo. Muito “você”.

Eu queria poder sentar do seu lado naquela tarde. Puxar uma cadeira barulhenta.Fechar algumas abas.


Principalmente aquela sobre hábitos matinais de CEOs.Eu fecharia com carinho, mas com força.


Depois eu jogaria fora o café frio, abriria a janela e diria uma coisa que você provavelmente odiaria ouvir:

vai demorar.


Não porque você é incompetente. Não porque você está atrasado. Mas porque quase tudo que vale a pena demora de um jeito humilhante.

Gosto demora. Trabalho demora. Uma voz demora. Um amor bom demora. Uma vida que parece sua demora.


E você, aos 26, não gostava de nada que demorasse.

Você confundia espera com fracasso. Confundia silêncio com invisibilidade. Confundia descanso com alguém passando na sua frente.


Essa talvez tenha sido uma das grandes tragédias pequenas da nossa geração.

A gente aprendeu a medir a vida em sinais.


Curtida. Resposta. Promoção. Print. Convite. Badge. Bio atualizada.


A internet colocou um balcão de atendimento dentro da nossa cabeça e agora tem sempre alguém imaginário dizendo: “próximo”.

E você vivia assim.

Como se a vida estivesse chamando senhas.


Como se em algum momento fosse aparecer no painel:

João Paulo Paiva, guichê 4. Sua vez de virar alguém.


eu queria te contar uma coisa


Ninguém chama.

Não desse jeito.


A vida não anuncia muito bem as coisas importantes. Ela costuma chegar mais torta.


Como uma mensagem simples. Como uma cozinha bagunçada.Como uma conta que vence na terça. Como alguém perguntando se você já comeu. Como um trabalho que parece pequeno, mas te ensina a prestar atenção.

Você ainda vai aprender muito com balcões.


Com panos úmidos.

Com copos empilhados.

Com o som do moedor cortando a conversa ao meio.

Com a pessoa que chega cedo e limpa a máquina antes de falar qualquer coisa sobre excelência.

Aos 26, você achava que trabalho importante precisava parecer importante. Hoje eu desconfio mais das coisas que parecem importantes demais.


Eu tenho confiado mais em gente que faz.

Gente com mão cansada.

Gente que sabe onde fica a fita crepe.

Gente que conserta uma mesa bamba colocando um papel dobrado embaixo do pé.

Gente que entende que detalhe não é frescura. Detalhe é cuidado tentando não fazer alarde.


Você vai demorar para entender isso porque, aos 26, você ainda queria um destino grande o suficiente para justificar sua ansiedade.

Você queria uma narrativa. Uma frase. Uma prova. Queria que todo sofrimento virasse material.


E olha, sinto informar: parte vira. Parte não vira nada.


Alguns dias difíceis são só dias difíceis.
Alguns fracassos não trazem sabedoria imediata.

Algumas portas fechadas só fazem barulho.

Algumas versões suas vão dar vergonha por muito tempo.

Tudo bem. Vergonha também é arquivo.


A gente guarda, um dia abre, ri um pouco, fecha de novo.


Eu não estou puto com você. Essa é a parte mais estranha.


Achei que, aos 36, eu olharia para você com superioridade. Tipo um adulto bem resolvido olhando para uma foto antiga com cabelo ruim.


Mas não.

Eu olho para você e sinto ternura.

Você era ansioso, sim. Vaidoso, bastante. Dramático, meu Deus.


Mas estava tentando. Do jeito errado às vezes, mas tentando.


Você queria construir alguma coisa bonita com as ferramentas que tinha.


Mesmo quando a ferramenta era só um laptop cansado, uma ideia torta e uma autoconfiança que quebrava toda quinta-feira.

Isso conta.

conta mais do que você imagina


Porque muita gente desiste ali.


Não de um jeito cinematográfico. Ninguém anuncia “hoje abandonei minha alma”.

A pessoa só para de fazer.

Para de tentar.

Para de escrever.

Para de desenhar.

Para de mandar mensagem.

Para de reparar na luz da tarde batendo no prédio da frente.

Para de achar que existe alguma coisa sagrada num caderno usado, num filme mal editado, numa mesa de madeira marcada por copos.


Você não parou.

Obrigado por isso.


Mesmo fazendo tudo meio torto, você continuou colocando coisas no mundo.

Textos. Vídeos. Ideias. Planos.


Alguns muito ruins, inclusive. Mas ruins de um jeito vivo.


E eu tenho cada vez mais respeito por coisa viva.

A internet vai tentar te convencer de que tudo precisa nascer pronto.

Com thumbnail boa.

Com posicionamento claro.

Com estratégia.

Com público-alvo.

Com uma frase que faça alguém salvar o post e nunca mais pensar nele.

Mas criação de verdade, pelo menos a que ainda me interessa, parece mais com porão do que com palco.


Tem cheiro de mofo.

Tem caixa aberta.

Tem cabo enrolado.

Tem uma lâmpada fraca.

Tem alguém ajoelhado no chão tentando fazer uma coisa pequena funcionar.

Aos 26, você queria muito o palco.

Eu entendo. O palco é quente. O palco resolve a dúvida por alguns minutos.


mas o porão ensina melhor


O porão é onde a gente descobre se gosta mesmo da coisa quando ninguém está batendo palma.

Eu queria que você tivesse feito mais coisas ruins.


Mais cedo. Com menos cerimônia.

Queria que tivesse publicado mais textos imperfeitos.

Gravado mais vídeos estranhos.

Perguntado mais.

Errado mais em público.

Mandado mais mensagens sinceras.

Tirado mais fotos sem pensar se elas serviam para alguma coisa.

Caminhado mais sem transformar a caminhada em conteúdo, insight, projeto, metáfora, newsletter.


Olha eu aqui transformando caminhada em newsletter.

A hipocrisia também envelhece com a gente.
Mas ela fica mais engraçada quando a gente admite.


Você achava que tempo perdido era o grande perigo.

Hoje acho que o perigo maior era perder presença.


Estar num lugar e morar em outro mentalmente. Conversar com alguém e editar uma versão melhor da conversa na cabeça.


Segurar uma xícara quente e pensar só na próxima coisa. Viver como se a vida fosse um rascunho aguardando aprovação.


Eu queria ter te dito antes:

ninguém vai vir te aprovar


E isso pode ser uma tristeza. Mas também pode ser um alívio.


Você pode começar antes da permissão.

Pode fazer menor.

Pode fazer feio.

Pode fazer sem ter certeza se aquilo é carreira, arte, fase, delírio ou só uma tentativa honesta de respirar melhor.


Aos 36, eu ainda não virei a pessoa que você imaginava.

Desculpa.

Não tenho a vida finalizada. Não tenho a calma de um senhor japonês cuidando de bonsais.

Ainda abro abas demais.

Ainda comparo.

Ainda acho que todo mundo recebeu um manual secreto da vida adulta e eu recebi um carregador que não encaixa em nada.

Mas eu estou menos cruel comigo.

Em alguns dias. Não em todos. E isso já muda a textura das coisas.

O café fica um pouco menos amargo.

A caminhada fica um pouco mais caminhada.

O trabalho fica um pouco menos prova de valor.

O amor fica um pouco mais mão no ombro.

Eu tenho aprendido que uma vida boa talvez tenha menos fogos de artifício do que a gente imaginava.

Talvez ela tenha mais pia cheia. Mais mensagem respondida com calma. Mais café feito direito. Mais gente sentada à mesa sem precisar performar felicidade. Mais coragem pequena.

Dessas que ninguém vê. Dessas que acontecem quando você continua mesmo sem música.

então, meu querido idiota carinhoso de 26 anos


eu não vou te dar um conselho grande.

Você desconfiaria. Com razão.


Eu só queria te encontrar naquela tarde, tirar o café frio da sua mesa e colocar outro no lugar.

Quente. Simples. Sem espuma desenhada. Sem legenda.


Só um café decente.

Depois eu ficaria ali do seu lado um pouco.


Sem transformar sua ansiedade em palestra.

Sem prometer que tudo vai dar certo.

Só para você saber que a gente chega. Meio amassado. Meio atrasado.

Com algumas perdas no bolso.

Com algumas histórias boas também.

Mas a gente chega.

E quando chega, descobre que talvez nunca tenha sido sobre virar alguém.

Talvez fosse mais sobre voltar, aos poucos, para perto.

Da mão.

Da mesa.

Da rua.

Do outro.

De si.

E você, pela primeira vez em muito tempo, talvez esquecesse de checar o celular.

Esse e-mail termina aqui. O resto, é nosso.

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