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por Paiva

Jul 13 • 3 min read

a pior notícia que recebi esse ano


a ponte que balança

Eram quase oito da noite.

O último cliente já tinha ido embora. A máquina de espresso fazia aquele barulho de limpeza que, depois de um tempo, vira parte da decoração sonora do café. Alguém torcia um pano atrás do balcão. O gelo do rinser derretia devagar.

Eu conferia a lista de fechamento pela terceira vez, mais por hábito do que por necessidade. Foi nesse silêncio que um dos baristas falou:

“Acho que esse lugar não é pra mim.”

Não teve discussão. Não teve porta batendo. Foi uma frase simples. Dita quase como quem comenta que vai chover amanhã.

Eu respondi qualquer coisa. Mas continuei ouvindo aquela frase o resto da noite.

Enquanto guardava as leiteiras.
Enquanto desligava os moinhos.

Enquanto fechava a porta.

“Acho que esse lugar não é pra mim.” Curioso. Porque eu já pensei exatamente a mesma coisa.

Sobre empregos.

Sobre projetos.

Sobre empresas que tentei construir.

Sobre vídeos no YouTube.

Sobre textos que nunca publiquei.

ás vezes, até sobre mim mesmo


Esses dias eu estava conversando com a minha terapeuta sobre como tem sido aprender a liderar pessoas mais novas.

Principalmente gente que cresceu com uma internet muito diferente daquela em que eu cresci.

Não é uma crítica.

Na verdade, eu acho que, se tivesse dezenove anos hoje, provavelmente faria igual.

Eles cresceram vendo pessoas mudarem de vida em poucos meses.

O vídeo viral.

A loja que faturou milhões.

O influenciador que largou a faculdade.

O criador que começou gravando no quarto e agora mora em algum lugar onde todo dia parece férias.

Quando essa é a paisagem que você enxerga desde adolescente, é difícil acreditar que uma terça-feira comum possa estar construindo alguma coisa.

O emprego vira um intervalo.

O café vira provisório.

Tudo parece provisório.

E, quando tudo é provisório, qualquer conflito parece um sinal.

Talvez eu esteja no lugar errado.

Talvez exista um lugar melhor.

talvez eu devesse ir embora


Eu fiquei pensando nisso porque, dessa vez, eu não tenho essa opção.

Eu não vou sair do Bam Bam porque aprender a liderar gen z está sendo mais difícil do que eu imaginei.

Também não quero.

E, sinceramente, não resolveria nada. Porque o problema iria comigo. Essa foi a parte mais desconfortável de perceber.

Passei dias tentando encontrar um jeito mais inteligente de aprender.

Ler mais.

Ouvir podcasts.

Conversar com gente mais experiente.

Fazer terapia.

Tudo isso ajuda.

Mas existe uma parte do trabalho que simplesmente não pode ser terceirizada. Ela só acontece enquanto você faz o trabalho.

No café existe uma expressão que eu gosto muito.

dial in


É quando você está tentando encontrar a melhor extração possível para um espresso. Você está procurando a melhor receita para aquele grão de café naquele dia.


Você ajusta um clique.

Tira outro café.

Prova.

Ajusta mais meio clique.

Prova de novo.

Às vezes demora 10min.

Às vezes demora dias.

Ninguém olha para um espresso ruim e conclui que deveria vender a máquina. Você só entende que ainda não encontrou o ponto.

Acho curioso como somos pacientes com café. E tão impacientes conosco.


Foi aí que lembrei de uma entrevista do Jerry Seinfeld.


Anos atrás ele precisou assistir, em ordem cronológica, tudo o que já tinha feito na carreira.

Os primeiros shows eram horríveis. Ele falava estranho.

Parecia desconfortável.


Não sabia onde colocar as mãos.

Alguém perguntou se aquilo não dava vergonha. Ele respondeu que não.


Porque aqueles shows eram a ponte de corda que ele precisava atravessar. Sem aquela ponte, não existia o outro lado.

Essa imagem não saiu mais da minha cabeça.


o atalho


Talvez a internet tenha criado uma geração que acredita que existe um jeito de chegar ao outro lado sem atravessar a ponte.

Mas, sendo justo, talvez ela só tenha dado nome a uma vontade muito antiga.

Quem nunca quis pular a parte difícil?

Quem nunca pensou que o problema era o emprego?

Ou a cidade?

Ou o relacionamento?

Ou o projeto?

Ou o algoritmo?


A verdade é que quase tudo que mudou a minha vida parecia uma péssima ideia enquanto estava acontecendo.

Abrir empresa.

Fechar empresa.

Começar um canal no YouTube.

Mudar de país.

Virar barista aos trinta e tantos anos.

Agora, aprender a liderar.


Nenhuma dessas decisões veio acompanhada da sensação de que eu estava no caminho certo.

Muito pelo contrário. Na maior parte do tempo, pareciam apenas difíceis.

Talvez seja esse o detalhe que a internet não consegue mostrar.

Ela mostra o café cheio mas não mostra quem limpou a máquina durante meses.

Ela mostra o vídeo com um milhão de visualizações, mas não mostra os cinquenta anteriores.

Ela mostra a cafeteria premiada, mas não mostra os turnos em que tudo deu errado.

Ela mostra quem chegou do outro lado, mas quase nunca quem ainda está atravessando a ponte.


o ciclo se repete

Amanhã eu volto para o Bam Bam.

Muito provavelmente vou ter mais uma conversa desconfortável.


Vou errar alguma coisa.

Vou sair de algum feedback pensando no que eu poderia ter dito diferente.

E talvez algum barista pense, de novo, que aquele lugar não é para ele.

Eu espero conseguir ajudá-lo. Mas, se eu não conseguir, espero pelo menos lembrar de uma coisa.

Anos atrás, eu também achei que o problema era o lugar.

Hoje eu desconfio que, na maioria das vezes, o problema era só a parte da ponte que balançava mais.

Esse e-mail termina aqui.

O resto, é seu.

@paiva // @jppaiva._ // paiva.me

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