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por Paiva

Sep 21 • 2 min read

o Dyson salvou minha vida


e faço isso com frequência

O momento em que escrevo é dentro do dia 10 de Setembro.

Minha esposa ainda estava grávida. O baby veio dia 15 ♥️

Mas naquele fatídico dia 10, o bebê podia nascer a qualquer momento. A qualquer instante.

Então, neste momento da vida, meu principal trabalho em casa é relativamente simples: manter minha esposa o mais tranquila possível.

Ela saiu há pouco para caminhar com a Twiggy. Disse que daria uma volta de uns 30min para espairecer.

Eu fiquei em casa. Peguei o violão.

O violão fica guardado embaixo do cabinet onde mora a Caideira, nossa golden pothos. Ela se chama Caideira porque, em algum momento, decidimos que aquele era um nome perfeitamente razoável para uma planta.

Eu estava guardando o violão de volta.


Foi aí que aconteceu.

O violão agarrou uma das trepadeiras.

Eu puxei. A Caideira veio junto. E caiu. Onde? Em cima da mala da maternidade.

A mala estava aberta. Praticamente pronta. A poucos centímetros do chão, cheia das coisas que minha esposa vai precisar quando nosso filho finalmente decidir sair de dentro dela.

Terra. Muita terra.

Por um segundo eu só fiquei olhando.

Depois veio aquele tipo muito específico de desespero que acontece quando você percebe que tem aproximadamente 20min para apagar as evidências de um crime doméstico.


Ela não pode ver isso.

Ela vai ficar aflita.

Preciso limpar.

Agora.

Sacudi tudo para fora da mala.

Evitei mexer demais nas roupas para não empurrar ainda mais terra para dentro delas.

Pelo menos a terra estava seca.

Ufa.


Sacode. Arruma. Aspira. Mexe. Arruma. Aspira. Aspira mais.

ASPIRA MUITO.

O chão estava inteiro cagado de terra.


Tinha terra na mala.

Tinha um pouco de terra no carrinho do bebê.

Tinha terra naquele pequeno espaço entre o móvel e a parede que eu provavelmente nunca teria aspirado se minha vida não dependesse disso.

E eu aspirei.

Tudo. De novo. E de novo.


Porque existe uma diferença enorme entre “está limpo” e “minha esposa grávida de 41 semanas vai olhar para esse chão e perceber que alguma coisa aconteceu”.

Eu precisava do segundo. Faltavam poucos minutos.


A mala estava limpa.

O carrinho estava limpo.

O chão parecia limpo.

Mas aí eu olhava para o canto.

Tinha terra.

Aspira.

Olho de novo.

Outra coisa.

Aspira.


A casa inteira entrou naquele ciclo estranho de faxina de emergência em que você começa a limpar lugares que não tinham absolutamente nada a ver com o acidente.

Foi quando ouvi a chave. Meu coração acelerou. Ela tinha voltado.


A chave entrou na fechadura.

Primeiro lock.

Clique.

Segundo lock.

Clique.

Eu ainda estava com o Dyson na mão.


A porta abriu.

“Oi, lindo. Cheguei.”

Olhei para o chão.

Limpo.

Olhei para a mala.

Limpa.

Olhei para o carrinho.

Limpo.

Olhei para a Caideira.

Viva.

Olhei para minha esposa.

Tranquila.


Ela não suspeitou de absolutamente nada.

Eu sobrevivi.


O Dyson salvou a minha vida (tom dramático).


Talvez seja isso que eu esteja entendendo nesses últimos dias.

a vida ficou muito pequena


Por enquanto, ela cabe numa mala aberta no chão da sala.

Num carrinho esperando alguém que ainda está dentro da barriga.

Numa planta pendurada num cabinet.

Num cachorro que saiu para caminhar.

Num violão encostado no canto.

Numa esposa que volta para casa dizendo “Oi, lindo”.


Daqui a pouco tudo isso vai mudar.


Meu filho continua aqui dentro. Ele vem (veio).

Mas pelo menos a mala está limpa. Pronta para o hospital.
Minha esposa está tranquila.

A Caideira sobreviveu.

Eu sobrevivi.


E, por algum motivo, isso parece suficiente.

Esse e-mail termina aqui.

O resto, é seu.

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