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por Paiva

Jun 15 • 2 min read

a saudade dói


a casa da minha avó tinha barulhos


Eu desconfio de quem diz que sente falta de lugares.

Porque quase nunca sentimos falta dos lugares.

A casa da minha avó era aquele tipo de lugar que estava sempre cheio.

Todos os netos iam para lá.

Verão, inverno, primavera, outono. Não existia essa história de “passar um tempo” na casa da minha avó.

A casa da minha avó era o destino.

Era também um lugar que nunca ficava em silêncio. Sempre tinha algum som acontecendo.

Ou era alguém na cozinha fazendo arroz, feijão, purê de batata e carne moída.


Às vezes uma canja de galinha. Às vezes sopa de feijão. Às vezes um miojo.

E eu juro que o tempero daqueles miojos era diferente. Tinha gosto de Turma da Mônica, de desenho animado depois da escola, de criança que ainda não sabia que um dia sentiria saudade.

Ou então era meu avô chegando do trabalho.

Meu avô era pescador. Pescador de verdade. E chegava em casa trazendo histórias que pareciam maiores do que os peixes.

Eu nunca sabia exatamente onde terminava a pescaria e começava a ficção.


Mas também nunca achei importante descobrir.

Ou então era minha avó sentada na sala assistindo televisão.

SBT.


A apresentadora favorita dela era a Hebe Camargo.

A televisão ficava ligada como uma fogueira moderna.

Nem sempre alguém estava olhando. Mas todo mundo estava junto.

Às vezes eram os Cavaleiros do Zodíaco. Castelo Rá-Tim-Bum. Chaves. He-man. Sítio do Pica Pau Amarelo.

Às vezes era o telefone cinza de disco tocando.


Aquele telefone servia como uma espécie de interfone entre as famílias.

Quase sempre era o André.

Ou a Renata.

Ou a Mariana.

Os primos do segundo andar chamando a gente para descer.

“Vamos pro play?”

E a gente ia. Como se tivesse sido convocado para uma missão importantíssima.


Talvez tivesse sido.

mas o som que eu mais lembro era outro

Era o som do armário.

Um armário simples. Velho. De madeira. Mas era o único armário da casa inteiro dedicado a brinquedos.


Só brinquedos.

Carrinhos. Bonecos. Autorama. Lego. Jogos de tabuleiro. Coisas quebradas. Coisas sem peça. Coisas que ninguém sabia mais de quem eram.

Às vezes a gente abria aquele armário sem procurar nada.


A graça não era encontrar. A graça era descobrir. Ver o que aquele armário permitiria que a tarde fosse.


Hoje isso me parece uma espécie de superpoder.

Uma criança diante de um armário cheio de possibilidades e absolutamente nenhuma delas precisava de wi-fi ou senha.

A casa da minha avó tinha muitos barulhos. Muitos sons.


Sons de panela.

Sons de televisão.

Sons de gente.

Sons de vida acontecendo sem esforço.

E talvez seja por isso que o silêncio de lá hoje pareça tão alto.

Minha avó faleceu em 2014.


Meu avô não mora mais naquela casa. Mas eu ainda volto lá de vez em quando.


E os sons continuam. Só que são outros.

Os bem-te-vis continuam assobiando nas árvores.

As buzinas continuam passando debaixo do Viaduto Paulo de Frontin.

Ainda existe o carro anunciando eletrodomésticos usados pelos alto-falantes.

Ainda existe vento.

Ainda existe tarde.

Ainda existe rua.


Mas alguma coisa foi embora.

E o que foi embora não faz barulho.

e isso dói

Ausência não chega fazendo escândalo. Ausência chega silenciosamente.

Ela senta no sofá. Fica parada no corredor. Encosta na parede da cozinha. E espera.

Às vezes eu entro naquela casa e tenho a impressão de que ainda consigo ouvir tudo.


O telefone.

A televisão.

As histórias do meu avô.

O armário abrindo.

Os primos correndo pelo corredor.

Mas é só por um segundo. Depois volta o silêncio.

E eu fico ali parado, escutando.

Como quem coloca uma concha no ouvido para tentar ouvir o mar.


Só que o mar, dessa vez, é a infância.

Esse e-mail termina assim. Sem lição de moral nenhuma. Nem cutucada digital.

O resto, é saudade.

@paiva // @jppaiva._ // paiva.me

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