já reparou como tudo agora precisa “passar rápido”?
O vídeo em 1.25x. O áudio em 2x. O texto resumido. O livro “em tópicos”. O café pra viagem, sem sentar. A sensação é sempre a mesma: preciso acabar logo com isso. Como se viver fosse uma lista de tarefas mal resolvidas. Hoje cedo, no ponto do ônibus a caminho do meu turno, vi um cara checar o celular quatro vezes enquanto aguardávamos. Nada mudava na tela. Mesmo assim, o corpo dele estava atrasado. O pé inquieto. O olhar meio perdido, meio dormente. A pressa sem destino. Ali, por algum motivo, me veio uma pergunta incômoda. Daquelas que não pedem resposta imediata:
acabar rápido com o quê, exatamente?
Durante muito tempo, eficiência foi vendida como virtude moral. Ser rápido virou sinônimo de ser melhor. Mais inteligente. Mais preparado para o mundo. Só que tem um detalhe estranho nisso tudo: algumas das coisas mais importantes que fazemos simplesmente não melhoram quando ficam mais rápidas. Pior. Elas desaparecem. Criar, por exemplo. Pensar de verdade. Prestar atenção sem segunda tela. Errar feio antes de acertar torto. Christoph Niemann, um artista alemão conhecido por suas capas criativas para a revista New Yorker, já disse que tenta ser eficiente com agenda, tecnologia e rotina, mas deliberadamente ineficiente ao criar. Porque no instante em que você começa a pensar no jeito mais rápido, você começa a cortar possibilidades antes mesmo de saber o que elas são. O erro vira desperdício. A dúvida vira atraso. O tédio vira inimigo. Só que é ali... exatamente ali, que alguma coisa começa a se formar.
existe um tipo de tempo...
Que não aceita otimização. Ele não se deixa compactar. Não funciona em modo resumo. A poeta Mary Ruefle chama isso de tempo desperdiçado. Um desperdício que não pode ser reaproveitado nem substituído. Ele precisa ser desperdiçado mesmo. É um tempo meio inútil. Meio silencioso. Meio irritante. E justamente por isso, fértil. As redes sociais não odeiam só o seu tempo. Elas odeiam o seu intervalo. O espaço entre uma ideia e outra. O vazio antes da próxima decisão. O silêncio que não rende métrica. Hoje, passamos segundos em cada conteúdo. Pulamos. Arrastamos. Salvamos coisas que nunca voltamos a abrir. Consumimos para chegar logo ao próximo consumo. Alan Jacobs tem uma pergunta que não sai da minha cabeça. Depois de acelerar a escrita, o filme, o livro, a pesquisa…
“e depois?”
Depois de passar rápido por tudo, o que exatamente aparece na nossa frente? Outro conteúdo. Outra tarefa. Outro resumo. O looping elegante da eficiência.
acelerar ou otimizar
Existe uma diferença sutil, e fundamental, entre otimizar processos e tentar acelerar a própria experiência de estar vivo. Quando tudo vira meio para outra coisa, o fim desaparece. Chegamos rápido. Mas não sabemos onde. Walter Murch, montador de filmes desde os anos 70, escreveu que "velocidade só importa depois que você decide a direção". Não adianta chegar rápido no lugar errado. Talvez o problema nunca tenha sido a tecnologia. Nem a velocidade em si. Talvez seja a ausência de destino. Nos últimos meses, trabalhando com café e hospitalidade, tenho aprendido isso com o corpo. Sempre falo isso aqui: o leite não apressa, o grão não negocia, o cliente percebe quando você está presente. E percebe quando você não está. Tem coisas que exigem demora. Contato. Repetição sem garantia. Estresse. Repetição. Resiliência. Talvez ineficiência não seja falha. Talvez seja escolha. Uma escolha silenciosa, quase subversiva, de fazer algumas coisas do jeito difícil porque só assim elas continuam sendo coisas. Perca seu tempo. Esse e-mail termina aqui. O resto, é seu.