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por Paiva

Apr 20 • 5 min read

ninguém mais sabe ouvir sóbrio


o custo de um “ok” mal pousado

Tem dia em que a loja inteira parece feita de vidro fino.

O som do prato toca diferente.
A colher cai com mais peso.
O vapor do leite sobe como se estivesse cansado também.Até a luz branca das seis e pouca da manhã, batendo no inox e no azulejo, parece ter acordado cedo demais.

Nesses dias, quase tudo funciona.

O café sai. A fila anda. Alguém limpa uma mesa. Alguém puxa um saco de lixo. Alguém pede 2 cappuccinos, um donut de chocolate e um copo d’água, por favor.

A operação continua.

Mas o ar está um pouco torto.

Não é uma tragédia.
Ninguém gritou com ninguém.
Ninguém jogou avental no chão e foi embora fumando um cigarro imaginário como num filme francês barato.

É menor que isso. Mais moderno também.

Uma frase chega seca. Um “ok” encosta errado. Uma correção simples entra no ouvido do outro já vestida de humilhação.


E, de repente, alguma coisa fica mais cara do que precisava.

Cara de sustentar.
Cara de habitar.
Cara de atravessar até o fim do turno.

bêbados por dentro


Tenho pensado muito nisso.

Talvez porque abrir loja seja uma escola estranha de humanidade. Você aprende sobre fluxo, sobre timing, sobre bandeja, sobre syrup, sobre break, sobre till, sobre o ponto exato em que o floor começa a perder o desenho. Mas aprende também uma coisa menos bonita de contar.

Como as pessoas escutam quando estão cansadas.

E como a nossa época parece ter deixado todo mundo meio bêbado por dentro.

Não de álcool.

Bêbado de tela. De si mesmo. De defesa antecipada. De noite mal dormida. De notificação. De histórico. De excesso de leitura emocional em frase que mal teve tempo de ser frase.

É como se a gente já chegasse ao diálogo com o fósforo riscado.

A fala do outro nem terminou e o corpo já está escolhendo armadura.

Eu vejo isso em mensagem de Slack.
Vejo em grupo de WhatsApp.
Vejo em loja cheia.
Vejo em silêncio curto demais.
Vejo num ponto final que ganha peso de sentença.
Vejo em mim também, que infelizmente não escrevo este e-mail do alto de nenhuma santidade japonesa, nenhuma iluminação de monge, nenhum autocontrole de comercial de perfume.

Já errei nisso.

Já fui direto demais.
Já deixei o cansaço entrar na frase usando sapato de clareza.
Já entendi o problema e errei a temperatura da mão.
Já senti, no segundo seguinte, que uma palavra tinha envelhecido mal na minha boca.

Essas pequenas feiuras do convívio. Nada épico. Nada literariamente grandioso.

Só o tipo de falha que deixa um gosto meio metálico na língua e acompanha a gente até em casa, no ônibus, no carro, no banho, no momento em que você abre a geladeira sem fome nenhuma só para fazer outra coisa com as mãos.

a parte sóbria da vida adulta


Uma frase curta não é só uma frase curta.
É indício. É prova. É sintoma. É vestígio de alguma violência secreta. É quase um episódio inteiro montado numa ilha de edição dentro da cabeça.

A gente ficou muito bom de legenda.

Péssimo de escuta.

Quem nasceu quando a internet já era pele talvez nem perceba o quanto foi ensinado a ler o mundo assim. Por reação, por recorte, por fragmento, por silêncio, por print, por clima.

Quem é da minha geração ainda lembra de um outro tipo de atrito. Mais analógico. Mais localizado. Uma conversa ruim tinha mais chance de morrer no corredor.

Hoje ela continua viva no bolso. Acende às 22h43. Vibra na mesa. Ilumina o rosto. Pede interpretação quando o corpo só queria água e travesseiro.

Tem uma parte da vida adulta que ninguém vende direito.

Não é a parte heroica.
Não é a parte da grande virada.
Não é a parte da coragem com trilha sonora.

É a parte sóbria.

A parte em que você ouve uma coisa desconfortável e tenta não transformá-la imediatamente num espelho do seu valor.
A parte em que você corrige sem querer deixar cicatriz.
A parte em que você percebe que o outro também está cansado, também está meio no limite, também talvez tenha tropeçado no tom e não no caráter.

gentileza é elegância sem vitrine

Pelo menos para mim.

Dessas elegâncias sem aplauso. Sem post. Sem close.

Quase como dobrar um guardanapo direito quando ninguém está olhando.
Como limpar a borda da xícara antes de entregar.
Como ajeitar o ambiente para que outra pessoa não precise tropeçar no que você poderia ter cuidado antes.

Talvez a gentileza ADULTA more aí.

Não naquela gentileza de comercial de margarina, toda redonda, toda bem resolvida, toda falsa de tão sorridente.

Estou falando de outra coisa.

Da gentileza de não deixar sua exaustão virar arma branca.
Da gentileza de não envenenar uma instrução simples com o resto do seu dia.
Da gentileza de ouvir sem colocar sangue onde havia só pressa.
Da gentileza de manter o ambiente respirável.

Porque é isso que vai ficando raro. Ambiente respirável.

Lugar em que uma conversa difícil não precisa virar novela.
Lugar em que um ajuste não chega como ataque aéreo.
Lugar em que ninguém precisa ser de vidro e ninguém precisa ser pedra.

por enquanto, segunda de manhã

Talvez eu esteja pensando nisso tanto porque os últimos dias têm sido longos de um jeito bem pouco poético.

O corpo chega em casa com cheiro de café, leite e sanitizer.

A perna pulsa. A cabeça continua em pé mesmo depois que o resto sentou. E aí 11 da noite chega com aquela cara de cobrança silenciosa, como quem pergunta se ainda sobrou alguma lucidez, alguma frase viva, algum resto de beleza utilizável.

Às vezes sobra.

Às vezes sobra só o barulho da geladeira e uma versão minha com a densidade intelectual de um pano molhado.

Então, por algumas semanas, esta carta vai chegar na segunda feira de manhã. Ela tarda, mas chega.

A loja ainda está encontrando o próprio esqueleto. Estamos contratando mais gente, ajustando sistemas, organizando estrutura, tentando fazer o caos parar de ranger.

Não deve demorar muito.

Mas agora meu descanso caiu em domingo e segunda, e quase todos os outros dias terminam compridos demais para eu sentar tarde da noite e pedir que a escrita saia bonita de um corpo que mal saiu do turno.

Prefiro te encontrar um pouco mais inteiro.

Talvez seja disso que eu esteja falando desde o começo, sem dizer do jeito mais direto.

Sobriedade não como dureza. Nem como frieza. Nem como autocontrole de quem posa bem em reunião.

Sobriedade como quem lava o rosto antes de responder.
Como quem abre a janela antes de concluir.
Como quem segura a própria pressa por alguns segundos para não piorar o mundo na escala pequena em que o mundo, de fato, acontece.

No balcão.
Na mensagem.
Na pausa.
No jeito de chamar alguém pelo nome.
No jeito de escutar uma frase sem imediatamente puxar a cadeira da defesa.

Talvez ouvir sóbrio seja isso.

Uma forma discreta de cuidado.
Uma pequena higiene da alma.
Um jeito de não deixar que o século entre na sala com sapato sujo.

Esse e-mail termina aqui.
O resto, é seu.

@paiva // @jppaiva._ // paiva.me

Vancouver, BC - Canadá
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