a IA estragou muita gente
Estragou mesmo? Sério?
Tem texto hoje que parece que saiu de uma reunião de marketing dentro de um aquário. Tudo muito limpo, muito correto, muito “humano”, muito “autêntico”, muito ovo cru.
Você lê uma legenda e consegue ouvir o ventilador do LinkedIn girando no teto.
Meu Deus. Fecha a janela. Vai tomar água. Encosta a testa numa parede fria por 30segs.
Tem uma coisa quase ofensiva nesses textos: eles não erram. E talvez seja exatamente por isso que irritam tanto.
Não tem uma unha quebrada. Não tem um café derramado. Não tem borrão de borracha.
É tudo liso. Liso demais.
Como balcão de cafeteria depois do fechar a loja, quando alguém passou o pano 3x e ainda assim ficou aquele cheiro fantasma de leite azedo no ar.
esse sábado foi puro suco de caos
Sabe aquele dia que começa do lado errado e uma coisa puxa a outra e, quando você menos percebe, está o puro suco de caos?
Pois é. Esse Sábado foi isso.
Eu estava atrás do balcão, no meio daquela coreografia pequena e exausta que todo mundo que já trabalhou em atendimento conhece.
Porta abrindo.
Fila crescendo
Staff 1h atrasado.
Ticket saindo.
Gente entrando.
Café passando.
Uma pessoa perguntando se o donut tem glúten.
Outra olhando para o celular como se o celular fosse dar uma resposta existencial sobre o dia dela.
E alguém reclamou do serviço.
Não foi uma cena grande. Ninguém jogou café no chão. Ninguém fez discurso. Ninguém fez birra.
Foi uma daquelas reclamações pequenas, que entram na sua alma como uma moeda caindo embaixo da geladeira.
Está lá. Você sabe que está lá. Mas não consegue alcançar para tirar de lá.
Um pedido que demorou. Uma resposta seca. Um tom errado. Uma espera que virou impaciência.
Você já viu isso. Eu tenho certeza. Talvez você já tenha sido o cliente. Talvez você já tenha sido a pessoa atrás do balcão.
Talvez os dois no mesmo dia, o que é o tipo de ironia cansada que a vida adora trazer quando está sem criatividade.
E aí vem aquela possibilidade moderna, minúscula e devastadora:
Uma avaliação no Google Review. Duas estrelas.
Três palavras. Três palavras podem virar a moldura de uma pessoa atrás do balcão que estava só atravessando um dia ruim.
E claro, antes que alguém me entenda errado, atendimento importa. Serviço importa. Competência importa.
Se você paga por algo, você espera que aquilo seja bem feito. Eu também espero.
Eu também fico irritado quando me tratam como se eu estivesse atrapalhando o funcionário a existir.
Mas existe uma diferença entre nomear uma experiência ruim e transformar uma fração do dia de alguém num diagnóstico público de caráter.
a gente avalia tudo (e todos)
E isso me preocupa. Demais.
A internet nos ensinou a nomear uma experiência ruim com uma eficiência assustadora.
A gente avalia tudo.
O café.
O motorista.
O restaurante.
O criador.
O texto.
O rosto cansado de alguém num vídeo de 15s.
O tom de uma mensagem.
A demora numa resposta.
O erro de uma frase.
A falta de emoji.
A vírgula que pareceu agressiva.
E, aos poucos, essa musculatura de avaliação negativa saiu da tela e entrou na vida.
A gente começou a olhar para pessoas como se fossem páginas de produto. 5 estrelas, 3 estrelas, devolução grátis, não recomendo.
Isso, para mim, é mais preocupante do que texto genérico feito com IA. Juro.
Porque texto ruim a gente edita.
Escuta ruim vai apodrecendo dentro das relações sem fazer nenhum barulho.
Talvez por isso a conversa sobre IA na escrita me pareça meio preguiçosa quando fica só no “agora todo mundo escreve igual”.
Sim. Muita gente está escrevendo igual.
Mas também tem gente escrevendo pela primeira vez com um pouco de clareza.
E isso não é pequeno.
Tem gente que sempre sentiu muito e falou pouco.
Gente que tinha um mundo inteiro dentro do peito, mas quando tentava colocar para fora saía uma frase seca, torta, injusta, às vezes até rude.
Gente que parecia distante porque nunca aprendeu a fazer uma ponte entre o que sentia e o que conseguia dizer.
Aí essa pessoa abre uma caixa de texto e escreve:
“me ajuda a responder isso sem parecer defensivo.”
Ou:
“me ajuda a pedir desculpas de um jeito profissional.”
Ou:
“me ajuda a explicar que eu estou sobrecarregado, mas ainda me importo.”
E o resultado talvez venha meio polido demais. Meio com sapato social de loja de departamento.
Meio com cheiro de template.
Mas, pela primeira vez, aquela pessoa tem um começo. Um andaime. Uma escada encostada na parede.
E eu acho perigoso a gente rir disso rápido demais.
Linguagem sempre foi uma forma de acesso.
Quem escreve melhor consegue pedir melhor.
Quem pede melhor consegue negociar melhor.
Quem negocia melhor consegue se proteger melhor.
Quem se protege melhor tem mais chance de continuar inteiro.
o trabalho agora está mais difícil
Hoje, muita gente cresceu com a sensação de que tudo pode virar prova contra você.
Um story. Um print. Um comentário. Uma avaliação. Uma frase fora do tom. Uma demora para responder.
Imagina depois de um atendimento torto num coffee shop...
Eu não acho que a IA virou muleta para todo mundo. Eu acho que ela expôs a nossa preguiça de diferenciar acabamento de presença.
Para quem escreve, por exemplo, é preciso devolver corpo e alma aos textos.
Tirar o plástico. Colocar uma migalha na mesa. Uma falha pequena. Uma lembrança específica. O reflexo da vitrine.
A palavra que só você usaria porque vem do seu porão com cheiro de mofo, da sua infância, da sua vergonha, da sua pequena coleção de obsessões inúteis.
Para quem lê, é preciso praticar uma generosidade menos ingênua.
Generosidade com critério.
Dá para perceber texto vazio.
Dá para criticar ferramenta mal usada.
Dá para exigir bom serviço.
Dá para dar feedback duro.
Mas talvez dê para fazer tudo isso sem transformar cada pessoa num recibo da própria pior hora.
no fundo, acho que é sobre isso
Acho que precisamos reaprender a escrever melhor, sim. Mas também a ouvir melhor.
A não esquecer que muita gente ainda está aprendendo a dizer “eu sinto muito” sem parecer um comunicado de imprensa.
E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de inteligência agora. Não a artificial. A outra.
Aquela que percebe quando alguém está tentando. Aquela que lê um texto meio genérico e pergunta:
“tem alguém começando aqui?”
Aquela que recebe um atendimento imperfeito e ainda consegue lembrar que existe uma pessoa do outro lado do balcão, com pés doendo, conta para pagar, cabeça cheia, e talvez uma vontade sincera de acertar amanhã.
Eu ainda acredito na frase torta. Na voz própria. No texto com respiração. No serviço bem feito. No pedido de desculpa que não vem perfeito, mas vem honesto.
Na conversa difícil que termina menos quebrada do que começou.
E, principalmente, acredito nesse gesto pequeno, quase ridículo, de devolver humanidade antes de devolver um Google Review de 1 estrela baseado num recorte de 30 segundos.
Na próxima vez que a raiva vier pronta, talvez valha fazer uma coisa simples.
Escrever antes de publicar. Respirar antes de avaliar. Ouvir antes de concluir.
Nem sempre. Mas às vezes. E às vezes já muda o dia inteiro.
E ai? Esse texto foi feito por IA ou não?
Importa?
Esse e-mail termina aqui.
O resto, é seu.
@paiva // @jppaiva._ // paiva.me