expectativas criam pessoas pequenas
Pequenas demais.
A pessoa ainda nem tinha chegado e eu já estava sendo desagradável com ela.
Esse é um talento horrível.
Eu estava na sala de um amigo, segurando um copo que suava na minha mão, olhando para uma tábua de queijos meio ambiciosa demais para uma terça-feira.
Tinha uva verde, uma faca pequena enfiada num brie, guardanapos de linho, uma vela que parecia tentar transformar todo mundo em adulto funcional.
Alguém disse o nome dela.
“Ele também vem.”
E pronto. Eu montei uma pessoa inteira na cabeça.
Pelo jeito que falaram dela.
Pelo trabalho que ela fazia.
Pela minha insegurança, principalmente.
Antes dele tocar a campainha, eu já tinha decidido que ele seria um pouco arrogante. Talvez frio.
Talvez daquelas caras que falam “super interessante” sem realmente achar nada interessante.
Daqueles que olham para você como se estivessem avaliando o cardápio de oportunidades humanas disponíveis na sala.
A campainha tocou. Eu endireitei a coluna.
Fiquei mais inteligente do que sou. Ou tentei.
Ajeitei a voz. Escolhi palavras mais limpas. Ri um pouco menos. Fiquei educado daquele jeito que, por dentro, é quase uma forma de ataque.
Ele entrou tirando o casaco com dificuldade, pediu desculpa pelo atraso, tropeçou levemente no tapete e disse:
“Gente, eu trouxe pão. Não sei se combina com nada, mas entrei em pânico no mercado.”
E eu senti vergonha. Mas não uma vergonha cinematográfica.
Uma vergonha pequena, de cozinha, daquelas que ficam perto da pia junto com copo sujo e talher usado.
Porque ele não tinha feito nada. E eu tinha feito tudo antes.
Criei a personagem. Escrevi a cena. Escolhi minha atuação. Cheguei defensivo numa pessoa que ainda nem tinha respirado perto de mim.
a expectativa faz isso
Ela transforma gente em papel.
O chefe vira juiz.
O amigo vira dívida.
A pessoa bonita vira promessa.
A pessoa bem-sucedida vira porta.
A pessoa quieta vira desprezo.
A pessoa confiante vira ameaça.
A pessoa que amamos vira prova constante de alguma coisa que talvez nem ela saiba que está sendo julgada.
Aí a gente para de encontrar pessoas.
Começa a encontrar versões editadas delas dentro da nossa cabeça.
E o mais estranho é que isso parece inteligência.
Parece leitura de ambiente. Parece intuição. Parece maturidade emocional com roupa boa.
Mas muitas vezes é só medo usando óculos.
Medo de parecer menor.
Medo de gostar mais.
Medo de ser ignorado.
Medo de precisar.
Medo de ser bobo.
Medo de entrar inteiro numa sala onde talvez ninguém esteja preparado para receber você inteiro.
Então a gente atua.
Fica frio antes de ser ferido.
Fica engraçado antes de ser visto.
Fica superior antes de ser comparado.
Fica disponível demais perto de quem parece importante.
Fica duro demais perto de quem a gente espera que decepcione.
A expectativa coloca uma roupa na outra pessoa e depois escolhe a nossa.
Essa é a parte que mais me incomoda.
Porque a gente imagina que está apenas se protegendo, mas, sem perceber, começa a desaparecer.
Sua voz muda.
Seu corpo negocia.
Sua escuta fica cheia de pauta oculta.
Você não pergunta mais quem está ali. Você tenta descobrir o que aquela pessoa confirma sobre você.
Tudo vindo da sua cabeça.
Se ela te admira, você relaxa.
Se ela demora, você endurece.
Se ela discorda, você se fecha.
Se ela gosta do seu trabalho, você volta a existir com um pouco mais de acabamento.
Coitado do outro.
Chegou para comer pão numa terça-feira e encontrou uma assembleia inteira dentro da sua cabeça.
Às vezes a pessoa queria só atravessar a noite.
as a gente entrega um papel invisível para ela.
“Seja a pessoa que prova que eu sou interessante.”
“Seja a pessoa que não me decepciona.”
“Seja a pessoa que me escolhe.”
“Seja a pessoa que eu já decidi que você é.”
Depois ficamos tristes quando ela improvisa.
E pessoas improvisam. Graças a Deus.
Elas chegam atrasadas. Trazem pão errado. Falam uma frase bonita no meio de uma bobagem. Têm opiniões confusas.
Pessoas têm bordas mal acabadas.
e a expectativa odeia isso
Ela gosta de forma. De controle. De previsão. De roteiro bem iluminado.
A vida real entra com sacola plástica.
Eu percebi, naquela noite, que eu tinha passado tempo demais tratando pessoas como sinais.
Sinal de futuro, de status, de afeto, de ameaça, sinal de que eu estava indo bem ou mal.
Isso cansa. Demais.
Cansa porque nenhum encontro fica simples. Tudo vira leitura.
A gente volta para casa exausto depois de conversas que poderiam ter sido leves, porque passou a noite inteira legendando o mundo.
O tom. A pausa. O convite. A ausência de convite. A risada que veio rápido. A risada que demorou meio segundo.
O camarada do pão sentou no chão depois de um tempo.
Ele partiu um pedaço com a mão, ofereceu para alguém, deixou farelo cair no tapete e começou a contar uma história sobre o pai dele tentando aprender italiano por aplicativo, repetindo frases inúteis pela casa como se estivesse se preparando para uma vida paralela em Florença.
Todo mundo riu. Eu também. Dessa vez de verdade.
E alguma coisa em mim afrouxou.
A pessoa que eu tinha inventado na minha cabeça não sobrevivia àquela cena.
Era difícil continuar achando alguém arrogante quando ela estava sentada no chão, com farelo no colo, imitando o próprio pai dizendo “dov’è la stazione?” com sotaque de quem nunca encontrou a estação nem dentro de si.
a realidade tem esse talento
Ela desmonta nossas categorias com detalhes pequenos.
Um tropeço no tapete.
Um pão comprado no pânico.
Uma história sobre um pai.
Uma risada torta.
Uma mão limpando farelo da calça.
Coisas que não servem para tese nenhuma, mas devolvem a pessoa ao tamanho humano.
Talvez a gente precise deixar os outros chegarem um pouco mais atrasados às nossas conclusões.
Dar alguns minutos antes de classificar.
Algumas frases antes de se defender. Alguns gestos antes de transformar alguém em ameaça, salvação, dívida, espelho ou porta.
Porque quando a gente permite que o outro seja mais real, alguma coisa nossa também respira melhor.
A voz volta para o lugar.
O humor aparece sem uniforme.
A conversa ganha frestas.
A noite fica menos eficiente e mais viva.
Perto do fim, a vela já estava baixa. O brie tinha virado uma pequena ruína branca. A tábua estava feia daquele jeito bonito que só acontece depois que as pessoas realmente comeram.
Na saída, ele esqueceu o guarda-chuva.
Alguém correu até o carro dele para devolver.
Ele riu, agradeceu, disse que vivia esquecendo coisas em casas onde se sentia confortável.
E eu fiquei ali, segurando meu copo vazio, pensando que talvez eu tivesse quase perdido uma pessoa inteira por causa de uma versão apressada dela.
Lá fora, a chuva batia fraca na calçada. Vancouver, né?
Dentro, ainda tinha farelo no tapete.
A gente olha para pessoas como olha para posts: procurando o erro, o sinal, a ameaça, o motivo para passar para o próximo. E talvez por isso esteja tão difícil simplesmente ficar.
Esse e-mail termina aqui. O resto, é seu.
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