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por Paiva

May 25 • 3 min read

era pra ser só xixi


que ridículo


Voltei 20min depois com as pernas dormentes, a cabeça cheia e absolutamente nada de importante resolvido.


Essa é uma frase ridícula. Eu sei.


Mas talvez seja também uma das descrições mais honestas da vida moderna.


A gente leva o celular para o banheiro como quem leva uma lanterna para dentro de uma caverna. Só que a caverna era pequena. Era só um banheiro. A missão era simples. Entrar, existir por alguns minutos, sair.


Mas aí vem uma mensagem.


Depois um vídeo. Depois os comentários do vídeo, que são sempre aquele lugar onde a esperança humana vai fumar sozinha na calçada. Depois uma notícia, uma pessoa cozinhando, uma outra pessoa explicando por que ninguém mais consegue descansar.


Quando eu levanto, o corpo está no mesmo lugar. O dia, não.


E talvez seja isso que me incomoda mais.


A sensação de que o tempo não passa rápido simplesmente porque estamos ocupados. Ele passa rápido porque a gente começou a atravessar todos os pequenos momentos da vida com uma tela na mão.


Vamos ao banheiro com o celular.

Entramos na fila com o celular. Almoçamos com o celular ao lado do prato.

Jantamos respondendo mensagem.
Deitamos com o celular.

Acordamos com o celular.
Vamos para festas com o celular no bolso, na mão, na mesa, sempre por perto, como um pequeno animal doméstico que exige atenção constante.


E, aos poucos, tudo demora mais.


O banho demora mais.

A fila demora mais.
A ida até a cama demora mais.

A refeição demora mais.
Até o descanso demora mais, porque antes de descansar a gente precisa dar uma última olhada em cinco aplicativos diferentes, como se o mundo fosse fechar durante a noite e coubesse a nós fazer o inventário final da internet.

Outro dia, numa fila de café, eu reparei que ninguém olhava para o menu. O menu estava ali, grande, na parede, com letras grandes, oferecendo coisas simples e civilizadas como cappuccino, latte, croissant, cookie, muffin.

Mas todo mundo olhava para baixo. Inclusive eu.


e ai chega o fim do dia


Essa é sempre a parte mais humilhante de qualquer crítica cultural: em algum momento, a gente percebe que está descrevendo a própria mão.


A fila andava devagar porque as pessoas estavam divididas.


O corpo estava na cafeteria, mas a atenção estava em outro lugar.

Alguém chegava no caixa sem saber o que pedir.
Alguém demorava para pagar porque estava respondendo uma mensagem.

Alguém pegava o café e quase esquecia o próprio nome sendo chamado.


Tudo continuava funcionando, mas com uma camada fina de atraso em cima.


Uma vida em loading.

E aí chega o fim do dia.


Você olha para o relógio com aquela sensação de golpe baixo.

“Como assim já são onze da noite? Como assim a semana acabou? Como assim maio já está quase indo embora com uma sacola no ombro, sem nem se despedir direito? 2026 já?”

A gente diz: “o tempo está passando muito rápido, né?


Está.


Mas talvez a nossa percepção do tempo tenha sido picada em pedaços tão pequenos que já não conseguimos sentir o dia inteiro encostando na pele.


Antes, a fila era fila. O almoço era almoço. O banheiro era banheiro. A cama era cama.


Pequenos momentos meio vazios, meio chatos, meio inúteis.


Momentos em que o pensamento aparecia sem ser chamado. Em que a gente olhava para a parede, lembrava de alguém, reparava numa mancha de luz, sentia fome de verdade, sono de verdade, tédio de verdade.


Agora quase todo intervalo vira conteúdo.


E conteúdo tem uma coisa curiosa: ele preenche, mas raramente alimenta.


É tipo biscoito (não bolacha). A gente termina o dia cheio e faminto ao mesmo tempo.

Cheio de vídeos, opiniões, mensagens, prints, piadas, notícias, discussões pequenas, imagens bonitas de vidas que não são nossas. Faminto de presença, de silêncio, de uma hora que pareça uma hora, de uma refeição que não vire cenário para outra coisa.


vamos ser realistas


Eu não quero fingir que vou largar o celular e virar uma pessoa de linho cru, cerâmica artesanal e respiração consciente às seis da manhã.

Eu gosto da internet.

Gosto dos memes idiotas, das mensagens dos amigos, dos vídeos estranhos, dessas pequenas provas de que ainda existem pessoas engraçadas fazendo coisas inúteis com uma convicção quase religiosa.


Mas tem alguma coisa pedindo menos.


Menos levar o celular para todos os cômodos. Menos transformar espera em consumo. Menos acordar dentro da internet antes de acordar dentro do próprio corpo.


Talvez comece de um jeito pequeno.


Deixar o celular na mesa quando for ao banheiro. Esperar a torrada pular olhando para o nada. Ficar na fila do café e só ficar ali, ouvindo a máquina de espresso, o barulho dos copos, alguém escolhendo um croissant como se estivesse tomando uma decisão importante.


Talvez o tempo volte um pouco quando algumas partes do dia voltarem a ficar vazias.


Não vazias de vida. Vazias de tela.


E talvez, numa manhã qualquer, antes de pegar o celular, você veja a luz entrando pela janela, escute um carro passando na rua, sinta o peso do cobertor, lembre que ainda existe um mundo inteiro antes da primeira notificação.


A xícara esperando na cozinha.


O dia ainda inteiro.


O silêncio, por alguns segundos, fazendo seu trabalho antigo.


Inclusive esse e-mail que termina aqui.

Se você leu até o final sem fazer outra coisa ao mesmo tempo, o resto é seu.

@paiva // @jppaiva._ // paiva.me

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